Dominatrix

A APRESENTAÇÃO

Sou um flâneur, um fruto da minha solidão vocacionada, adoro caminhar longas distâncias e cultivei uma preferência pessoal por explorar as ruas e vielas do Centro do Rio. Infelizmente, a realidade mudou, o Centro se decompôs e o índice de assaltos aumentou consideravelmente, mas ainda me arrisco a degustar desse meu prazer trivial ocasionalmente. Sempre fui afeito à adrenalina, na minha envelhecida maturidade o vício da aventura avultou-se, nunca combinei muito com freelancers, tenho a mania da escolha visual, somente as termas, as boates e as ruas perdidas da cidade fornecem a matéria-prima que me sustenta. Prefiro a caça ao delivery.

Passei a escrever menos no Fórum, relato pouquíssimo as minhas andanças urbanas por perceber que a maioria dos foristas contemporâneos carrega um perfil muito distante do meu, são mais convencionais, gostam de café com bolo, se arriscam menos e não possuem a necessidade da abordagem e da sedução, que são essenciais à minha libido. Ao mesmo tempo, são poucos os TDs que me convidam à leitura, não gosto de histórias lineares ou telegráficas, isso não combina com a busca do sexo. Este relato que escrevo agora, não pretendia registrá-lo, penso que provavelmente não será do interesse da massa dos foristas. De qualquer forma, eis-me aqui tecendo a narrativa, talvez pelas características inusitadas que me proporcionou.

O ENREDO

Há tempos que venho mapeando a região da Lapa, lá eu colhi espécimes femininas de extrema delicadeza e qualidade, algumas vieram para o fórum após eu induzi-las, outras preferem insistir nas emoções da pista. Descobri alguns pontos ao ar livre, como a Rua do Rezende, a própria Av. Men de Sá, o Bar do Baiano na Rua da Relação e umas poucas casas de música onde as “promoters” estão sempre dispostas a ouvir propostas indecentes. Nos últimos dias, me arrisquei em mais uma pesca de piranha na região do aqueduto.

A Av. Gomes Freire é uma das referências com maior concentração de gente no entorno da velha Lapa revigorada, por algumas vezes observei um boteco onde pude reconhecer rostos familiares das termas e de algumas das nossas autônomas. Meu faro continua apurado para detectar mulheres com potencial de empatia. A calçada comprimida de corpos humanos não me impediu de alcançar o balcão do bar e pedir uma dose de Black Label.

— Não tem, chefe. Só tem Teacher’s. Serve? — informa o balconista que parecia um polvo de 20 tentáculos servindo à multidão.

Aceitei a oferta a contragosto, a bebida veio em um copo de geleia, o que me parece ser a última moda na Lapa. O primeiro gole desceu amargo, mas dilatou minhas pupilas. Voltei para a calçada, liguei o radar e fiquei na observação. Trinta minutos depois, surge uma morena, dessas que a gente chama de jambo, entubada em um minivestido branco, coxas grossas, boca carnuda, e bunda tobogã. Já na terceira dose de Teacher’s, não posso afirmar se era uma mulher realmente bonita, pois cumpri a fase alcoólica em que chamamos urubu de “meu louro”. Apresentava-se atraente. Ela também foi até ao balcão do botequim e retornou com uma garrafa verde de cerveja, estava sozinha e fiquei na dúvida se esperava alguém. Analisei-a por uns vinte minutos até me decidir a abordá-la. Sou tímido, mas o álcool faz do meu Dr. Jackyll um Mr. Hyde.

— Boa noite, me desculpe por incomodá-la. É que estou há poucos dias no Rio, você sabe me dizer onde é bom para aproveitar a noite?

Confesso que forcei tanto um sotaque falso de turista que a menina deve ter pensado que a minha última frase seria “ET phone home”. A moça me lançou um olhar panorâmico e mantendo a fisionomia impassível sussurrou a resposta surpreendente.

— Sei, sim. Os motéis no final dessa rua são bons.

— Como assim? — devolvi perplexo.

— Anjo, estou trabalhando. São 250 reais. Interessa?

Acredite, forista sem fé, putas e libertinos se atraem como mercúrio.

— Pode ser que me interesse — respondi, relevando a objetividade frígida da menina — qual seu nome?

— Juci. Sou dominadora. Aviso logo, porque é o meu estilo.

Dominadora… naquele momento, não entendi bem o que ela quis dizer, mas nunca havia saído com uma dominadora e a minha mórbida curiosidade implorou-me para que eu aceitasse o convite. Juci sugeriu os motéis no final da Gomes Freire, mas eu apontei para o Hotel Estadual, próximo de onde estávamos. Ela concordou.

O DESFECHO

O quarto é simples e sem firulas, preparado para uma trepada pragmática. Entramos, avancei para beijá-la e pressenti que não estava com uma dominatrix, mas com uma sádica, Juci mordeu-me o beiço com a força de um caranguejo hidrófobo, fiquei paralisado e mudo de dor até que ela me libertasse daquela pinça dentária. Com a boca dolorida, preferi não arriscar mais beijos até o fim do programa.

Tiramos a roupa, ela entrou no banho, eu fui em seguida. No retorno, ela me ordena que eu chupe sua boceta, digo de passagem que a vagina da Juci parecia cabeça de maestro de orquestra sinfônica, dotada de uma vasta cabeleira ornada por pentelhos rebeldes. Pedi que se deitasse para que eu pudesse chupá-la.

— Não, deitada não. Ajoelha e me chupa — instruiu com voz autoritária.

Não estava gostando daquilo, mas me ajoelhei mergulhando o rosto naquele tufo de pentelhos negros e grossos. Juci não gemia, urrava com um tom masculinizado, meu pobre Pikachu começou a só querer que o tempo terminasse para voltar intacto à bucólica Tijuca.

— Deita — Juci me dá a nova ordem.

Deitei-me, ela veio por cima e começou a roçar a chana no meu combalido pênis. Estava gostosão, a fricção daqueles pentelhos, o choque da estática arrepiante que a esfregação causava na minha virilha, foram as minhas últimas sensações antes de ver Juci erguendo a mão e sentar-me um tabefe na cara com a potência de Hércules. Neste ponto, afeiçoado forista, suponho que saí do ar por uns dez segundos, primeiro vi estrelas, depois sonhei que estava sendo recebido por São Pedro às portas do Paraíso, então me lembrei de que sou ateu e comecei a reabrir os olhos. Só tive tempo de ver Juci erguer novamente a mão direita, um reflexo traumático me fez saltar para o lado e cair da cama junto com ela.

No chão, ela me lançou um olhar desafiador e prendeu a minha cabeça em uma chave de perna que quase esmagou meu pescoço, temi ser vítima de algum golpe ou roubo. Comecei a balançar os braços freneticamente, como se estivesse sufocando, Juci me soltou. Apressei-me a pedir arrego.

— Juci, me perdoe, mas vou encerrar aqui. Esse estilo não é pra mim.

— Ah, meu bem, só trabalho assim, eu avisei. É assim que tenho tesão.

Paguei a despesa, fui lavar o rosto e vi minha bochecha com mancha de rosácea. Deixei o hotel, fui caminhando a esmo e esbarrei com o Bar das Quengas. Pedi um Black Label e dessa vez o garçom fez a minha vontade. Das caixas de som vazavam os acordes de “Michael Douglas”, do João Brasil. Puxei um guardanapo, saquei minha caneta do bolso e comecei a rascunhar a estranha e inédita desventura que vivi. Não se preocupe, se eu contasse essa história para mim mesmo, não acreditaria. É preciso viver.

MICHAEL DOUGLAS

Libertine-se…

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