Somos fantasmas colonizando o tempo, os lugares pelos quais passamos, as lembranças daqueles com quem cruzamos, os amores que vivemos. Somos fantasmas pairando pelo nosso próprio rastro de vida.

Há poucas semanas atravessei a Praça Mauá, foi como se eu ultrapassasse um portal e me visse, através dos olhos do meu espectro, o cenário dos meados da década de 1990. As luzes, os sons, os bares abarrotados de homens famintos por sexo e mulheres de programa, as boates nos convidando à luxúria, foi como assistir a região portuária ressuscitar de um passado morto e sepultado por museus e novas camadas de concreto.

Reencarnado no meu fantasma de outras eras, estacionei o meu carro nos arredores da Avenida Rio branco e me preparei para subir os degraus estreitos da Boate Flórida. A nostalgia é uma arapuca perigosa, um labirinto difícil de se escapar, mas me deixei tragar pelo passado, retomei os resquícios da juventude desperdiçada na boemia improdutiva, revi o sombrio viaduto da perimetral, tomei um chope no antigo pé-sujo embaixo do inferninho, observei o porteiro da Scandinávia tentando pescar clientes, respirei o aroma libertário da maresia ancestral e decrépita que emergia do mar.

Tudo no mundo é frágil, tudo passa, quando me dizem isso toda a graça de uma boca divina fala em mim” — estes versos da poetiza Florbela Espanca ganharam mais vulto à medida em que envelheci. As árvores das calçadas resistem, os sobrados centenários e carcomidos se mantêm de pé, talvez a peça mais frágil da existência sejamos nós, que transpomos os anos inundados por uma torrente incessante de perdas que nos descaracterizam e corroem a nossa identidade.

Quando entrei na Flórida da minha memória e contemplei a pista da boate, revivi a emoção, a adrenalina dos dias remotos, mas jamais esquecidos. Pouca luz, mulheres dançando nos queijos que circundavam o ambiente, o DJ em sua cabine tocando os sucessos da época, os garçons incansáveis, gringos e brasileiros unidos pelo desejo em uma arena apinhada de garotas dispostas a nos conceder o orgasmo. Todos esses elementos formavam uma pequena maquete da felicidade para o pândego errante que não pensava no amanhã. Uma convenção de cigarras reunidas enquanto as formigas dormiam.

Na minha jornada proustiana, Be my lover vibrava nas caixas de som, o álcool, misturado às batidas da música, despertava a euforia coletiva. Pelas grandes janelas panorâmicas da Flórida, eu conseguia ver as águas mansas de uma Baía de Guanabara pontuada por pequenos brilhos distantes e misteriosos.

BE MY LOVER

Uma stripper gaúcha se apresenta no palco, alta, longos cabelos negros, um corpo irretocável e sinuoso. Desnuda-se, sabe do poder que enfeitiça os olhos que a esmiúçam em cada pedaço de sua pele. Eu a aprecio fascinado, ela se ondula no ritmo da melodia que transborda à sua volta. Sento-me em um canto, peço um martini, a bebida doce e rascante aquece a minha garganta, as pupilas se dilatam, os brilhos intensificam-se, as mulheres se tornam hipnóticas. Foi quando me deparei com uma loira colossal requebrando-se em um dos queijos, o corpo esguio, as pernas torneadas, os cabelos cacheados desabando sobre os ombros, os olhos ardiam verdes em contraste com as luzes de neon, ela sorria e despia-se impudica. Sensual como se fosse a manifestação física da luxúria, não consegui parar de encará-la, até que ela percebeu a minha presença. Sinalizei e convidei-a para se sentar ao meu lado, ela veio após terminar seu show.

Michele o seu nome, de perto ainda mais linda, paranaense em temporada no Rio, veio atrás do dinheiro e dos gringos ancorados no porto. Alta, devia atingir 1,70m, olhos verdes, lábios carnudos, pernas longilíneas e bem torneadas, barriga chapada, uma perfeição perdida naquele caldeirão de promiscuidade. Paguei algumas bebidas e perguntei se podíamos ficar juntos (não existiam quartos na Flórida nesta época). Ela aceitou, me informou o valor do cachê e me disse que poderíamos ir para o seu quarto no Hotel São Bento, localizado na esquina da Rua São Bento com Av. Rio Branco, naquele tempo restringia-se a um pulgueiro que abrigava prostitutas e clientes. Concordei e saímos juntos da boate.

No quarto do hotel, ela se despe lentamente, me encarando, como se quisesse me provocar, liga o rádio, dança ao som de Zombie, música que marcou aquele ano…

ZOMBIE

Pediu que eu me deitasse, veio por cima de mim como uma felina em chamas, lambeu meu rosto, meu tórax, minha barriga, deslizou sua língua até a minha virilha e abocanhou meu jovem pênis com o prazer de uma mulher que gosta de chupar um homem. Estremeci, mas lutei contra a ejaculação precoce, ela sobe novamente sobre o meu corpo, monta meu tronco como uma amazona e cavalga como a Sharon Stone em “Instinto Selvagem”. Leva a boca até a minha boca, sem interromper a cavalgada, me beija, lambe meus lábios, rebola mais intensamente. Resistir seria inútil, gozei meus infantes espermas ainda cheios da energia da flor da minha idade.

Voltei outras noites à boate Flórida, voltei outras noites ao Hotel São Bento, voltei mais e mais noites aos braços e abraços de Michele. Não me lembro quando deixamos de nos encontrar, quando parei de vê-la. O tempo é um rio caudaloso que vai erodindo tudo a nossa volta, deixando um vazio onde antes reconhecíamos nossas referências, até nos arrastar em seu fluxo para um mistério que desconhecemos.

Quando despertei de mim mesmo e retornei ao hoje, o Sol afogava-se colorindo o mar com o reflexo laranja de suas chamas, me senti sozinho naquele cenário agora irreconhecível para os meus olhos, não havia mais Michele, não havia mais Flórida ou Scandinávia, o pé-sujo se sofisticou e o jovem que eu abandonei no tempo nunca quis me acompanhar no meu envelhecer. O rio segue e eu ainda tento nadar contra a corrente.