Sempre fui um animal noturno, desde a adolescência que a noite me intimava por uma atração gravitacional difícil de resistir. Adulto, adquiri uma insônia crônica, uma ansiedade brutal me assola e tenta me empurrar para fora de casa durante as madrugadas. Não sou Sol, sou sombra. Quando me relaciono, é difícil para mim me manter com pessoas que sejam mais diurnas ou que não possam estar comigo em algumas dessas noites de desassossego. Tornei-me notívago ainda muito jovem e talvez somente o cansaço inevitável da velhice possa me curar, mas não deixo de levar em conta que há doenças sem cura.

É provável que eu tenha experimentado a maior parte da minha vida vivida submerso sob o manto da noite. As manhãs e as tardes foram as horas em que inexisti, como um homem comum, espremido em um escritório ou me desviando de outros homens inexistentes que caminham pelas calçadas como se o sentido da vida fosse buscar sentido na mera sobrevivência. Quando anoitece, tudo é diferente, a atmosfera fica impregnada de feromônio, somos caça e caçadores, o desejo é a força que nos move, há sangue, há substância, euforia, fatalidade. À noite não somos replicantes raciocinando caminhos para o sucesso, somos instinto, somos potência, somos outro.

Além da insônia, também me acompanhou desde a juventude a propensão em gostar de estar sozinho, de sair sozinho, uma certa idolatria gótica pela solidão. Sou lobo sem matilha. Estar sozinho para mim é sinônimo indissociável de liberdade, depois de tantos anos abraçado ao celibato a liberdade é algo próximo de uma religião na minha escala de valores.

Raramente eu desenvolvo apego romântico por uma mulher. Para piorar nunca dei muita sorte nas escolhas, dizem as más línguas que tenho o dedo podre, mas as mulheres com quem estive, com quem convivi e dividi minhas loucuras foram mulheres que amei sem amarras. Todas passaram, não ficou nem vestígio de amizade, talvez por não serem capazes de construir uma união positiva comigo ou com qualquer homem. Não as condeno, talvez nossos corações sejam irmãos desvalidos. O estranho é que quanto mais eu envelheço, mais me remeto ao romantismo juvenil do passado, menos vontade tenho de me mover sozinho, mais eu anseio por uma alma gêmea que me acompanhe. Mas que mulher é essa que me completaria na libertinagem bárbara em que vivo? Fragilidades que surgem com a decomposição espiritual que o tempo nos impõe.

O dia é a hora dos condenados, a noite é a ilha dos libertinos, dos náufragos, daqueles que sabem que há salvação nas sombras. Vivo assim, inexistindo sob a luz e me libertando quando escurece. Tal como Dante Alighieri, percorro o Inferno e as trevas buscando a minha Beatriz. Dentro da escuridão dos seres perdidos, não nos reconheceremos pelos rostos, mas pelo toque, pelo fragor das almas que colidem. Nosso encontro será a nossa salvação, será a quebra do infortúnio que me fez mais lobo do que homem.