O vento frio açoitava os corpos atrevidos e arranhava as almas imprudentes que se arriscavam pela noite fria da terça-feira. Eu, um gaúcho transmutado em carioca, que há muito perdeu o jeito para as invernadas, desembarquei do metrô na estação Cinelândia. Assim que emergi do subsolo, em frente ao Teatro Municipal, a brisa gélida e traiçoeira mordeu o meu rosto como um chacal que aguardava a presa previsível.

A cada novo passo, minhas botas ecoavam o som seco das calçadas; sob as marquises, homens e mulheres envoltos em cobertores, casulos da miséria produzidos pelo nosso sádico egoísmo. O planeta gira, os anos correm e fica a sensação de que somente a desolação triunfa. Acelerei a marcha e quando atravesso a entrada de um bar, ouço a voz feminina cantando uma balada que me sequestrou para o passado. Virginie e a banda Metrô transbordavam Johnny Love das caixas de som, envolviam as mesas do Amarelinho e me faziam lembrar de antigas paixões, de outras vidas que tive em eras que desbotaram no tempo. O pedágio que um libertino paga pela liberdade é a solidão, a miragem tirânica de uma imortalidade dentro de um universo onde tudo morre.

JOHNNY LOVE

Enviei mensagem para a minha companheira de aventuras, avisei que havia chegado. Isa logo me responde com um lacônico “estou descendo”. Percebo que ela sai do prédio com um dos seus clientes, espera que ele se afaste e depois caminha em minha direção com a leveza de um desfile sensual. Loira, cabelos soltos, uma pele alva impecável, Isadora exibia as coxas grossas emolduradas por uma saia justa que ressaltava a sua bunda empinada, os seios irretocáveis escondiam-se em um provocante corpete de renda preta disfarçado por uma jaqueta jeans. Ela se aproximava de mim ao mesmo tempo em que arrastava os olhares famintos dos ébrios da região. Entramos em um táxi e partimos para o Clube Mix.

Dentro do carro, Isadora encosta a cabeça no meu ombro, segura uma das minhas mãos e seguimos assim, aconchegados, atravessando as ruas sombrias e desertas do Centro até o burburinho frenético dos arredores do Arco do Teles. Dois libertinos unidos pelos desatinos do destino, dois personagens intrépidos em busca do orgasmo feérico. O rádio do taxista sintonizava em outra melodia do passado: Just an illusion, da banda Imagination.

JUST AN ILLUSION

O táxi nos deixou no entorno da Praça 15, percorremos um curto trecho da Bolsa de Valores até a boate, um mar de gente, cantoria, mistura de sons, conversas, gritos, aquela profusão caótica de ruídos causava estática no meu aparelho auditivo. O relógio marcava 21h quando entramos no Clube Mix.

Subimos um longo lance de degraus e encontramos a recepção penumbrosa. Pago os sessenta reais (com nome na lista) e somos conduzidos ao interior do lugar por uma menina encaixada em uma minissaia justíssima. A boate é escura, sombria, com ares de decadência, lembrou-me mais uma terma do que um swing. Não avistei casais, somente homens perdidos pelos cantos e garotas de lingerie que deviam ser contratadas para interagirem com os presentes. O DJ tocava alguma coisa que meus ouvidos não guardaram na memória, tudo soava um pouco deprimente.

Eu e Isadora nos sentamos num ponto estratégico e ficamos observando. Alguns dos sujeitos presentes esticavam o pescoço para tentar avaliar as curvas insinuantes da minha parceira, não havia ação no ambiente, tudo meio parado, sem graça entediante para os nossos propósitos. Como não vimos outros casais presentes, deduzi que a Isadora seria seviciada pelos lobos presentes no recinto. Quase não se fazia possível identificar rostos e corpos devido a iluminação precária da pista. Aconteceria outra festa a partir das 22h30, teríamos que pagar novo ingresso, mas decidimos sair dali para reavaliar os nossos objetivos.

Isa estava com fome, naufragamos em um bar qualquer no meio daquele oceano de gente. Pedimos uns petiscos, ela com sua tradicional coca-zero, eu com meu uisquinho, ficamos namorando perdidos entre a multidão aloprada que fervilhava entre os sobrados seculares e a Baía de Guanabara.

Sem opções aceitáveis para o inflexível horário restrito da Isadora, consideramos melhor retornarmos ao famigerado Castelo das Princesas. No meio do trajeto, encontramos o camarada Papai Noel tomando biritas com a simpática Juhly Zombie, nos juntamos a eles no internacional Bar do Zezé. Papo em dia, despedidas, subimos para nos consolar com um bom sexo antes que o horário da Cinderela terminasse e eu virasse abóbora. Fim de festa.

Caminho pela noturna rua Álvaro Alvim e embarco em um táxi.

— Toca para a bucólica Tijuca, motorista.

O rapaz acelera, cortamos o percurso por uma Lapa lotada, é estranho e raro um libertino se sentir domado pelo amor depois de tantos amores que se perderam no vácuo das lembranças. O passado insistia em falar por músicas e do rádio do automóvel um som transpirava como se debochasse da minha condição. Set me free…

SET ME FREE

#Libertine-se