Fui um andarilho noturno e no verão de uma década distante, quando a Lapa respirava entre as sombras de travestis e rufiões decadentes, longe da festa das luzes de neon que imperam atualmente, eu caminhava pelos burburinhos clandestinos da rua do Riachuelo. Não tinha um rumo, mas buscava um objetivo, parei em um boteco numa esquina arborizada da av. Nossa Senhora de Fátima e pedi uma Salinas.

Um boêmio fala, mas prefere ouvir. Escutar os papos sorrateiros ou gritantes de um botequim é colher histórias ou perceber convites para aventuras. Dois homens que aparentavam estar na faixa dos quarenta anos de idade comentavam sobre um amigo desgarrado.

— Cadê o Rufino, cara? O bicho sumiu, estava comigo agorinha mesmo.

— O Ladeira passou aqui e disse que ele foi para os lados da Caverna do Dragão.

— É ali no início da André Cavalcanti.

— É puteiro?

— Inferninho.

Atento ao diálogo entre os dois personagens notívagos, gravei as coordenadas e me decidi a explorar a tal Caverna do Dragão. Tomei três doses da minha cachaça favorita e parti deslizando com as minhas botas em direção ao lugar. Meu estado etílico dava aos meus passos um ritmo de levitação, as pupilas dilatadas pelo álcool me faziam ver estrelas cadentes no asfalto. A felicidade é um copo de caninha.

Comprei um maço desses cigarros de menta, na época eu gostava de ter algo entre os dedos exalando fumaça como um defumador. Alcancei a rua André Cavalcanti e avistei um toldo roxo piscando com luzes que me lembravam decoração de Natal. A placa na entrada mostrava-me que acertei o caminho. O nome Caverna do Dragão piscava em vermelho, ao lado das letras o dragão estilizado simulava soltar chamas pela boca. Entrei…

Sempre gostei de sair sozinho à noite, isso me dava liberdade, me permitia a mobilidade que eu quisesse exercer, não me fazia depender das preferências de uma companhia para entrar onde eu quisesse. A Caverna do Dragão não cobrava ingresso, pagava-se pelo consumo. A entrada desaguava em uma rampa que se aprofundava pelo subsolo de um prédio que aparentava ser residencial, segui por uma angustiante descida em caracol que não prometia fim, caí em uma sequência de corredores iluminados por pequenas luzes vermelhas e finalmente desemboquei em um salão amplo, decorado com candelabros e lustres antigos, como se fosse a sala de uma casa da nobreza imperial. O som altíssimo me anunciava uma região exótica, penetrei na pista ao som de A-Há com Take On Me…

A-HA

Debaixo de um dos lustres exuberantes, uma mesa de sinuca e no entorno algumas mesas pequenas rodeadas por duas cadeiras. Pelos cantos, vi pinballs e máquinas de fliperama; no centro de tudo uma pista de dança cercada por cordas, como se fosse um ringue para luta de boxe. A-Ha deve ter sido a introdução, pois logo o DJ emendou com Dreams…

DREAMS

De cara cheia, arrisquei minha veia dançante e soltei a franga enquanto observava o entorno. A boate era habitada por uma galera moderninha para aqueles anos remotos, meninas com maquiagem pesada, homens com cabelos estranhos, um clima gótico. Eu atraía a atenção por ser um elemento destoante naquele aquário de peixes ornamentais, estava vestido com um blazer, blusa social e as botas gaúchas inseparáveis nas minhas incursões pela noite. Uma loira com roupa semelhante a de uma colegial perdida no bordel me acompanhava de rabo de olho e um sorriso que poderia ser deboche ou curiosidade, eu queria abordá-la, mas precisava me fortalecer com mais uma dose e fui buscar o bar atrás de um uísque.

Assim que desci do ringue, a melodia de Simple Minds ecoou nos meus ouvidos que ainda ouviam, nesse momento fui possuído, esqueci o uísque, retornei ao ringue musical e encarnei um Baryshnikov insano.

SIMPLE MINDS

Não me lembro de ter dançado tanto na vida, talvez por isso me recorde das músicas, das sensações, do gosto de tudo, do sabor do batom da loira que consegui beijar quase no alvorecer da madrugada. Acendi um cigarro, lancei as mãos para o alto, rebolei como um hetero liberado de todos os preconceitos plantados na alma e conheci o Nirvana.