Admito, tenho absoluta aversão ao conceito de matrimônio e uma poderosa repulsa à ideia de procriar. Talvez, essas convicções anticonvencionais tenham surgido através das minhas leituras de adolescente e da influência profunda que um filósofo alemão despertou em mim, falo de Schopenhauer. Muito cedo, tomei consciência de que a coisa de amor é uma ilusão química, uma armadilha que tem como fundo o instinto de perpetuação. Sim, afeiçoado, carrego pensamentos estranhos, mas isso não quer dizer que eu não ceda ao ímpeto da paixão ocasional. Há mulheres que tornam o amor inevitável, Gisele está entre elas.

Moro sozinho em um apartamento grande, em frente a uma pracinha famosa da bucólica Tijuca, onde muitas vezes me sento, como agora, para meditar, escrever pelo celular e testar a potência do meu Wi-Fi. Para não dizer que sou completamente só, familiares me deram uma cadelinha poodle, talvez por compaixão. Condenaram o pobre animalzinho a compartilhar da minha solidão.

Oportunidades me fizeram trazer a companhia de mulheres por breves temporadas e os momentos mais felizes desses relacionamentos acontecia quando elas decidiam ir para a própria casa nos fins de semana. Solidão não é escolha, é vocação. Sou um indivíduo reservado, de poucas palavras e bom de ouvido, mas criaturas com o meu temperamento evoluem para misantropos. Só acredito no casamento como união comercial, algo que garanta a estabilidade financeira dos indivíduos que se unem, o casamento como decisão racional, longe dos sentimentalismos baratos.

Certa vez, em uma aula na faculdade de Letras, uma professora sentenciou que “o amor não existe”. Crentes de plantão saltaram da cadeira como rãs em crise epilética, babaram de indignação, a peçonha das mentes mofinas escorria pelos cantos de lábios trêmulos.

— E o amor de mãe? — gritava uma virgem dissimulada de Taubaté.

Contestar o amor, contestar o casamento, é como contestar Deus, enveredamos por discussões tomadas pelo passionalismo medieval. As pessoas precisam crer no imaterial, mesmo que ele dê provas diárias da sua inexistência. Novamente, porém, saber de tudo isso não impede que não sejamos tomados por sensações românticas.

Quando eu imaginei que Gisele fosse embora, ela ficou por mais uma semana a pedido da boate, a menina fez sucesso no Palácio de Cristal, atraiu freguesia e não nego que me senti orgulhoso por ter criado vínculos com ela. Sugeri que ela ficasse na minha casa, na bucólica Tijuca, mas ela recusou o meu convite. Fiquei frustrado, mas tentei compreender, Gisele é desses espíritos livres, não se prende, vive, ela não se incomoda de dormir em hotéis, está acostumada e talvez prefira que seja assim. A prorrogação foi de uma semana, mas tivemos somente um único e último encontro.

Recebo mensagens, pelo site OS LIBERTINOS, em que sujeitos me questionam.

— Dante, o quanto dessas histórias é real e o quanto é ficção?

Afirmo a você, estimado leitor, não consigo escrever sobre aquilo que não vivi. Nunca consegui. O que constrói a minha escrita são as impressões e emoções que extraio da realidade. Não sendo assim, não consigo produzir nem sequer uma única linha. Sua desconfiança nasce da sua opção de vida. Se é casado, padece em um cárcere privado e voluntário, seu mundo é recheado de mentiras e receios de ser desmascarado pela companheira que acorrentou ao seu lado; se é solteiro e não alcança a forma como eu existo, é porque escolheu se limitar ao sexo de jaula, ao sexo delivery. É possível que você não me compreenda por que é difícil compreender quem escolhe a liberdade e paga um preço por ela.

No meu caso, sou um diletante de ambientes, adoro explorar sombras, zonas proibidas, limites perigosos. Eduquei-me dessa forma. Veja, querido companheiro que me acompanha nas andanças noturnas, o Palácio de Cristal é uma boate LGTB, quase na periferia da Lapa, e o que me aconteceu lá? Conheci uma mulher fabulosa, fui recebido como família, até mesa fixa já tenho e sou atendido com mais calma pelo Maquita. Isso não aconteceria se eu não rompesse, constantemente, as minhas próprias fronteiras. A descoberta, no entanto, devo também ao Baiano, figura única que me permiti encontrar.

Não sei se verei mais a Gisele, o contato ficou rarefeito desde que ela viajou, mas não me esqueço da última pergunta que ela me fez.

— Que música você quer me ver dançando na nossa despedida?

— Gosto de Bryan Ferry, coloca uma das baladas dele.

Sentado próximo ao palco, escuto os primeiros acordes de Slave To Love…

SLAVE TO LOVE

Acredite, forista sem fé, não sou uma pedra de gelo, quando Gisele entrou em passos de levitação, numa dança delicada, vestida em uma túnica transparente, me olhando fixamente, simulando cantar parte da letra, me emocionei.

Tell her I’ll be waiting
In the usual place
With the tired and weary
And there’s no escape

To need a woman
You’ve got to know
How the strong get weak
And the rich get poor

Slave to love, Slave to love

Imagino que para você, que é escravo da rotina, seja difícil acreditar que um instante assim possa acontecer, mas acredite que eu já pude viver muitos instantes semelhantes, desses de tirar o fôlego.

Maquita, percebendo que eu não retornarei tão cedo ao Palácio sem a presença de Gisele, trouxe doses de cachaça mais rápido do que eu conseguia beber. Quis levar Gisele para um motel sofisticado, mas ela teimou que deveríamos passar a noite no carcomido Hotel Estadual. Não vou me esticar aqui descrevendo acrobacias sexuais, mas irei confirmar que vivi, outra vez, uma das noites mais gloriosas da minha existência. No rádio, por alguma dessas convergências mágicas do destino, tocava uma antiga melodia do The Cure.

LULLABY

Antes que eu fosse embora, Gisele puxou um maço de cigarros, me ofereceu um e pela primeira vez fumamos juntos. A fumaça branca e tênue se desfazia por entre os dedos, se dissolvia no ar como todas as boas lembranças que nos acompanham pela eternidade.