Um gaúcho que nunca se interessou em ser gaúcho porque ama a natureza que a Tijuca me infundiu na alma. Quando me perguntam de onde eu sou, respondo que sou tijucano, gentílico único que identifica uma espécie única de cariocas. Quando me questionam onde nasci, respondo que brotei no interior do Rio Grande do Sul, mas foi na Tijuca que nasci e renasço todos os dias. Há um livro de Machado de Assis intitulado como “O Alienista”, em que Simão Bacamarte, o protagonista, começa a sua história com a frase “Itaguaí é o meu universo”, pois eu afirmo, afeiçoado forista, a Tijuca é o meu universo, sou fruto desse verde que nos engole pela raiz.

Vista da Floresta da Tijuca

Como se não bastasse a Tijuca ser o celeiro de tantas personalidades notáveis que ascenderam como destaques no Brasil (Roberto Marinho, Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Tim Maia, Tom Jobim, Gilberto Braga, André Esteves, Aldir Blanc, este modesto Dante etc.), é nela que habita uma bela mulher que experimenta o melhor da maturidade feminina, dotada dos traços de uma grega clássica, de longos cabelos negros, corpo desenhado em curvas esbeltas e provocantes, com mãos que enfeitiçam e amolecem os homens. É Alice, que nos seduz com sua magia camuflada em massagem e habita um dos pontos mais icônicos do bairro, a antiquíssima e sempre renovada Galeria Eskye, que está ali desde a década de 50, foi onde existiu o cinema que frequentei desde a minha mais tenra adolescência, cinema que depois se transformou em dois: Tijuca 1 e Tijuca 2. Nessas salas eu me perdi nas imagens cinematográficas, filmes que marcaram minha memória, foi nelas que assisti ao primeiro Superman, a Jornada nas Estrelas e tantas outras películas inesquecíveis. Hoje, adormeço, esqueço da vida e mergulho em quimeras no pequeno espaço aconchegante onde Alice nos hipnotiza com seus encantos.

Antiga Galeria Eskye

Num ato de profunda intimidade, confesso a você, estimado forista, que aprecio muito passear próximo ao final da tarde pelas ruas da Tijuca, faço disso a minha caminhada reflexiva e nostálgica. A última mulher que amei profundamente era de Itatiaia, mas morava na Tijuca, eu a conheci num curso de Francês, no crepúsculo da minha adolescência, já entrando na fase adulta, se chamava Lúcia. É estranho e talvez até um pouco obsessivo, mas não há um dia em que eu não me lembre dessa menina, dessa última paixão romântica, antes que eu perdesse a alma e me tornasse um solitário libertino. Moro em frente à Praça Xavier de Brito, num imóvel que tem cara de casa de avó, e que não só me abriga, me abraça. A pracinha é justamente um dos locais onde mais me encontrei com Lúcia, onde mais conversamos e namoramos. Tatuou-se em mim como lembrança de velho, um de tipo vestígio afetivo que nos persegue até o último suspiro.

Voltemos a bela Alice, que também traz com ela essa aura romântica quando nos beija, quando nos envolve em seus braços, quando nos toca com as mãos suaves e carinhosas. Alice não faz somente uma boa massagem, ela nos acaricia como se fosse uma mulher que nos ama. E acredito que ela nos ame enquanto estamos em sua companhia. Passar uma hora nos aposentos de Alice é como viver uma espécie de sonho que paira entre o dormir e o estar acordado. Não há encontro com Alice que não seja inesquecível.

Não foi diferente nesta última vez em que nos avistamos. Eu andava a esmo pela Praça Saenz Peña quando resolvi saber se ela estava disponível, ela não estava tão disponível, mas deu um jeito para mim. Não fui pelo orgasmo, fui pelo carinho e assim transcorreu a nossa intimidade, foi um longo momento de muitos toques, carícias, provocações e erotismo. Depois, a conversa, as confidências. O que admiro na Alice é a ética, é saber que o que falamos com ela fica apenas com ela, a sala de Alice também é o meu confessionário.

Deixei a galeria com aquela leveza rara que só as boas companhias nos proporcionam, caminhei até o Rico’s Lanches, pedi um pastel e um caldo de cana que saboreei como um bilionário saboreia caviar. Respiro todo aquele ar fresco que me rodeia. Não, não sou gaúcho, sou tijucano, rodeado por todo o verde da floresta que nos engole pela raiz.