Noite de sábado, despedida de Gisele. A chuva fina cobria a velha Lapa com pequenas poças e reflexos d’água. Sentei-me em um lugar de canto dentro do Bar Brasil, onde havíamos combinado o nosso encontro. O relógio marcava um pouco além das 22h, pouca gente no bar, os únicos sons de vida vinham da Avenida Men de Sá, as calçadas estavam repletas de mulheres e jovens boêmios. Entre chopes e croquetes de carne, bateu 23h e Gisele não apareceu, considerei melhor desistir e girar um pouco pelas ruas do entorno. Quando saí do Bar Brasil, Gisele surgiu loira, linda e emoldurada por um vestido vaporoso, com grandes decotes nos seios e nas costas. Colosso.

Gisele sugeriu que entrássemos na frenética Rua Gomes Freire, queria tentar encontrar uma amiga para avisar que estaria viajando no dia seguinte. Na verdade, ela encontrou muitos amigos e não localizou a tal amiga. De mãos dadas, ela foi me puxando para a Rua do Rezende, imaginei que fosse me conduzir ao Hotel Estadual para mais uma noite sublime de amor, mas não foi assim, ela quis somente pegar um atalho para o Palácio de Cristal. Quase em frente ao Hotel Andorinha, um corpo caído no chão, ensanguentado, uma viatura da polícia aportando, uns poucos pedestres começando a se aglomerar em torno do ferido.

— Vamos ver, Dante. Vamos ver… — pediu-me a loira.

Uma ideia macabra da menina, mas preferi não a contrariar para garantir um bom sexo. O homem de meia-idade jorrava o sangue que escorria para a sarjeta, os policiais acionavam a ambulância.

— Foi navalha — afirmou Gisele.

— Navalha? Como sabe disso — inquiri surpreso.

— E foi recente, tem pouco sangue acumulado — ela continuou com a análise.

Sentindo-me um Dr Watson, perguntei novamente de onde ela tirava as conclusões.

— Namorei um coroa que era legista e ele me ensinou muitas coisas. Dante, vamos dar uma olhada por aí, talvez a gente ainda possa encontrar quem fez isso, deve estar com a roupa manchada.

— Mas por que eu iria sair atrás de quem fez isso, Gi? É doideira, é arriscado.

— Você tem coisa melhor para fazer? Vamos. Se encontrarmos algum suspeito a gente volta e informa para a polícia — Decretou Gisele.

Novamente, para garantir um bom sexo, optei por não contrariar a stripper. Fomos nos embrenhando até o fim da Rua Gomes Freire, onde, a cada passo, o ar se tornava mais sinistro. Eu me sentia um detetive de filme noir acompanhado da loira fatal, minha previsão era de que não esbarraríamos com suspeito algum e ainda seríamos assaltados.

— Gisele, tô achando meio perigoso nos aventurarmos assim, vamos voltar — tentei convencê-la, provavelmente, com cara de bunda.

— Dante, você escreve lá naquele site que viver é ousar e está cheio de cagaço? Olha isso! Olha!

Gisele apontou para um objeto abandonado em cima de uma fossa: uma navalha.

— A navalha. Não falei que foi navalha?! Com certeza é de quem rasgou o cara.

— Não vai tocar nisso, né? — alertei.

— Não, não. Vamos voltar lá e falar com os policiais.

— Pelo amor de Deus, Gi. Não vamos nos meter nisso, vamos perder a noite.

Não adiantou argumentar, Gisele me puxou pela mão e me arrastou de volta à sombria Rua do Rezende. Quando alcançamos o ponto do crime, muito mais gente rodeava o corpo, um ti ti ti informava que a vítima tinha falecido. Navalhada no pescoço, corte profundo, agora havia muito sangue no local. Se faleceu ou não, fiquei sem saber, estranhei não ver nada nos jornais. Por algum motivo, quando soube que o sujeito não resistiu ao ferimento, Gisele desanimou e desistiu da empreitada detetivesca. Puxou-me novamente pela mão e emergimos na Men de Sá. Fiquei imaginando se ela estava certa, se aquela navalha sobre a fossa era a arma do crime, impressionou-me o talento investigativo da garota.

— Dante, você pode ir num lugar comigo?

— Onde você quiser, minha princesa — a minha resposta foi retórica, eu não iria aonde ela quisesse, percebi que era maluquinha.

— Vamos ter que andar um pouco. É num prédio na Praça da Cruz Vermelha, uma cartomante.

— Cartomante?!

— É. Sempre vou nela quando venho ao Rio. Acerta tudo sobre a mim.

— Então vamos.

Paramos diante de um prédio antigo, desses que parecem cenário de filme de exorcista. A noite continuava cabulosa e eu quase perdendo o tesão. Coisas estranhas não me excitam, me causam desinteria. Gisele toca para o apartamento, ninguém fala, a porta do edifício apenas se abre. Entramos no elevador de porta pantográfica que rangia ao abrir e fechar. Quarto andar, dedo na campainha, uma mulher com véu de cigana nos recebe.

— Oi, menina. Quanto tempo? — a senhora com véu de cigana cumprimenta Gisele — senta um pouquinho, vou chamar a madame.

Sentamos num sofá cor de cáqui, fiquei com a impressão de que subiu uma poeira do forro quando me acomodei. Logo em seguida, entrou outra senhora com véu na cabeça.

— Vem, garota — sentenciou a cigana.

Gisele levantou me puxando junto, para variar. Cochichou no meu ouvido.

— Você tem cem reais para eu dar a ela quando terminar?

Puta que pariu” — pensei.

— Tenho sim, princesa.

Sentamos ao redor de uma grande mesa de madeira velha e toda lascada nas pontas. Por cima, uma luminária de luz roxa. A cigana abriu a palma da mão de Gisele, alisou, olhou nos olhos e desembuchou rápido a primeira frase.

— Você vai ser roubada, menina. Um homem próximo vai te roubar.

Acredite, leitor sem fé, neste momento esperei um batalhão da polícia arrombar a porta e me levar para Gericinó, preso em flagrante. A cigana idosa falou aquilo para me sacanear, só pode. Gisele balançou a cabeça, me olhou de soslaio e eu esbocei a cara de bunda. Depois disso, não prestei mais atenção em nada do que a quiromante dizia. A sessão terminou, puxei os cem reais, entreguei a Gisele, que entregou a senhora de véu e fomos embora.

Pensei que, após todas essas desventuras, ela me pedisse para ir para um hotel. Enganei-me. Gisele tinha um último show no Palácio de Cristal. Lá fomos nós. A boate não estava cheia, Gisele me colocou em uma mesa perto do palco, me avisou que ia se preparar e que depois da apresentação poderíamos ficar juntos. Tudo bem, eu esperaria, tinha enfrentado uma sequência de merdas para garantir o bom sexo, não dava para desistir.

— Vai de empada? — o garçom Maquita surge do nada, com olhos arregalados.

— Pode trazer.

De repente, uma pancada na mesa e um copo de geleia com cachaça. Definitivamente, empada é código de pinguço no Palácio de Cristal. Bebo uma, bebo duas, bebo três, bebo quatro e uma melodia conhecida vaza alta pelas caixas de som da boate…

ENIGMA

Gisele surge sobre as luzes rubras vestida de freira, num imaculado hábito branco. Suspiro inebriado com sua dança e erotismo. O que vem depois? Uma das trepadas mais divinas que experimentei na vida. Elementar, meu caro Watson.