Um leitor (sem fé) me envia mensagem, irei resguardar o nick por questão de privacidade.

“Dante, encontrei o Palácio de Cristal, mas não tive coragem de entrar e não pude ver a sua tão falada Gisele. Você tem certeza de que ela é mulher? Acho que o Palácio é boate gay”.

Para o leitor que veio me questionar sobre a Gisele, respondo que ela não é apenas mulher, é um mulherão que me proporcionou um dos momentos mais icônicos da minha existência na última sexta-feira. A seguir…

A noite fumegava quando cheguei ao bar do Baiano, na rua da Relação. O lugar estava lotado, crepitava num burburinho intenso. O Baiano, atarefadíssimo, não veio me receber imediatamente. Acomodei-me em uma mesa de canto, dessas que ninguém quer, não localizei outro lugar vago. Após uns cinco minutos, Baiano vem me cumprimentar.

— O dotô, me desculpa. Hoje o pessoal não tá dando trégua. Ó sua Salinas aqui.

Devido ao calor, eu não pretendia cair na cachaça, mas depois de servida só me restou bebê-la em uma golada. O líquido desceu pela minha garganta como se fosse um punhado de ganchos afiados rasgando tudo pela frente, o suor brotava sob a camisa, minha única e maior vontade era a de ficar nu diante de um potente ar-condicionado. Completei a entrada da cachaça com mais três chopes e pedi a conta.

— Já vai, dotô?

— Vou dar um rolé, meu amigo. Qualquer coisa volto.

Mais cedo, me comuniquei com Gisele, ela estaria no Palácio de Cristal. Confesso que fui com animação pálida, a alta temperatura das ruas me fez sentir saudade da minha suíte refrigerada na bucólica Tijuca, mas caminhei sem hesitar até a porta da boate. O rapaz de espartilho não estava, subi os degraus e antes de entrar na boate recebi a comanda de uma travesti, que também amarrou uma fita lilás no meu pulso. Não demorei para ver o garçom Maquita girando pelo salão com se tivesse recebido uma overdose de narcótico. Tudo estava bem decorado neste dia, tinha até um pequeno palco iluminado, com uma bandeira de arco-íris ao fundo, um detalhe que não reparei nas visitas anteriores. Maquita veio me atender como se nunca tivesse me visto.

— Já pediu?

— Viu a Gisele por aí? — perguntei ao garçom eletrizado.

— Daqui a pouco ela entra. Vai ter show — ele me responde.

— Show?

— Vai de cachaça? — neste momento, acho que se lembrou de mim, mas não esperou resposta e acelerou para outra mesa.

A boate tem mesas espalhadas por toda a sua extensão, as paredes escuras acentuam a penumbra de uma luz azul cortada por feixes avermelhados, homens e mulheres das mais diversas etnias sexuais confraternizam-se distantes de quaisquer preconceitos. Não posso afirmar que o Palácio de Cristal é uma boate gay, eu diria que está mais para um ninho pansexual. De repente, um copo de geleia cheio de 51 bate sobre a mesa, era o Maquita voltando com a cachaça.

— Vai uma empada para acompanhar? — no Palácio, empada é petisco.

Antes que eu confirmasse o pedido, Maquita despareceu novamente. É aqui, afeiçoado forista, que o relato começa a alcançar o seu clímax, é neste ponto que a minha memória se esforça para expor a você todos os detalhes do que vivi. As luzes se apagaram e a iluminação do palco simula o tom noturno do luar; uma batida ritmada (como tambores tocando) domina o ambiente; dois gogo boys entram segurando pelo braço uma mulher loira, um de cada lado, ela trajava uma comprida túnica branca com capuz. Os dois homens fingem amarrar a mulher na barra de pole dance, puxam um artefato cenográfico que simula uma fogueira e um deles anuncia que a bruxa será queimada, como num ritual da Idade Média. De repente, o som de acordes que eu reconheço, mas em uma versão que nunca ouvi, tomam conta de todos os ouvidos.

I Put a Spell On You

A mulher se move no palco como se desfizesse das amarras, com um único gesto abre a túnica e revela o corpão de curvas vertiginosas coberto por um minúsculo biquíni com estampa de chamas. Ela dubla o primeiro verso da canção e aponta o dedo indicador para mim.

I put a spell on you
Because you’re mine

A minha envelhecida uretra travou, estimado leitor Na pista, as pessoas procuravam para quem ela apontava, era para mim. Gisele dançava como uma profissional, sua pele alvíssima, imaculada, refletia as luzes como uma estrela, sua cintura esculpida se contorcia como uma enguia erótica, os longos cabelos loiros voavam a cada passo da performance. Enquanto isso, eu estremecia em uma ejaculação psicológica. Ela desce do palco, passa por entre as mesas, recebe notas de dinheiro, gritos de euforia, aplausos, até que se põe à minha frente, senta-se no meu colo e me dá um beijo de ressurreição. Lázaro levantaria da cova com o beijo que ela me deu. Não se demorou. De volta ao palco, tirou as peças do biquíni, agarrou um dos boys, roçaram-se, ele a ergue com os braços e todas as luzes se apagam junto com o fim da música. Delírio da plateia. Porra, eu trepei com uma stripper. Anoto no currículo.

A boate volta ao normal. Maquita reaparece com a inacreditável empada. Gisele ressurge loira, vestida numa bermudinha jeans que exibe a polpa da bunda e semicoberta por uma camiseta para lá de decotada. Pega a minha mão, me puxa até o banheiro insalubre e eu percebo, enfim, que estou apaixonado. O próximo passo será hipotecar meu patrimônio e ser feliz.