Véspera de feriado, o tédio invadiu o meu apartamento metendo o pé na porta. Tentei ver filmes, tentei ler livros, tentei contar carneirinhos… Tudo me parecia uma chatice. Para esses momentos, a única cura é a rua. Para quem não me conhece, não consigo me vestir de forma despojada, tenho cacoete de nobreza britânica e isso me faz sofrer muito no verão carioca. Vesti meus trajes de caça e arrisquei enviar um zap para a Gisele antes de embarcar no Sucatão.

“Qual a boa hoje?” — digitei.

Não esperava resposta, mas uns cinco minutos depois o meu celular fez um beep.

“Estou no Palácio. Vem.”

“Ainda lembra de mim?”

“Claro, o gostosinho do banheiro. Vem que hoje é festival de New Wave aqui.”

Festival de New Wave, onde isso poderia existir, a não ser em uma boate LGBT? Desci à garagem, encaixei a chave na ignição e girei. Sucatão acordou com o ronco dos guerreiros famintos pela próxima batalha. Acelerei e ganhamos o negrume misterioso dos descaminhos do asfalto.

Sim, forista sem fé, é preciso que eu diga que o Palácio de Cristal é uma boate essencialmente LGBT, mas com uma atmosfera pansexual. Vi mulher com mulher, homem com homem, travestis, garotas de programa e garotos de programa. Tudo comandado pelo garçom Maquita, que circula com a bandeja sobre a cabeça e olhos arregalados, como se estivesse chapado ou sob efeito de alucinógenos.

Estacionei na rua Gomes Freire, a Lapa fervia de calor e de gente. Finquei minhas botas gaúchas na calçada (sim, eu também uso botas no verão) e escolhi primeiro tomar umas no Beco da Noite, antes de subir à boate dos degenerados. Para piorar a sensação térmica, pedi uma dose de Salinas, pois só a cachaça faz efeito rápido em mim. Uma dose, duas doses, três doses, foi na quarta que ela surgiu vaporosa, elegante, sedutora: a felicidade. Na quarta dose de cachaça, as pupilas se dilatam, o mundo brilha como um astro de primeira grandeza, todos os problemas se tornam banais e tudo na vida se torna belo (animal, vegetal e mineral). Por falar nisso, sempre termino a última dose acompanhado de uma garrafa de água mineral para cumprir o rebate.

Parti para o Palácio de Cristal, meio bêbado, mas consciente. Um rapaz sem camisa e de espartilho me recepciona, me reconheceu da última visita.

— Bem-vindo de volta. Curtiu né, coroa? — finaliza a pergunta com uma risadinha infame.

Ganhei uma fitinha lilás que ele amarrou no meu pulso, que até agora não entendi para que servia. Subo os infinitos degraus do velho sobrado e alcanço a pista, que desta vez estava com uma decoração transada, pôsteres de cantores de época e um globo espelhado pendurado sobre o centro do salão. A noite sem música é mulher mutilada. Antes mesmo de pisar na pista, identifiquei o som que tocava.

Soft Cell – Tainted Love

O lugar ainda não estava tão cheio, como ficaria mais tarde, logo avistei Gisele dançando animada. Que visão, estimado forista. Ela estava vestida em um vestido branco, justo e curto, sem sutiã; as provocantes pernas de bailarina expostas sem pudor. Ela me vê e abre um sorriso que quase me causou ejaculação precoce; para completar, ainda mexeu com o dedinho indicador me chamando para perto. Hóstia loira. Puta que pariu. Loira linda. Fui me aproximando, mas ela não parou de dançar, quando me coloquei à sua frente, a cada batida da música ela lançava os cabelos dourados contra o meu rosto, alisava a minha barba, mordia os lábios. Foi preciso muita força de caráter para não trepar ali mesmo. No fundo, creio que fosse o que ela desejava.

A trilha sonora New Wave emendou com Bryan Ferry…

I Put A Spell On You

Neste momento eu me senti como o Harrison Ford dançando com a estonteante Emmanuelle Seigner em “Busca Frenética”. Para quem não conhece a cena, segue o link:

Busca Frenética-Cena

Por que essas coisas só acontecem com o Dante? Por que só o Dante vive essas situações? Como é possível? — perguntaria o forista sem fé. Essas coisas acontecem comigo porque eu procuro, porque evito me comportar como um animal enjaulado que só come quando o tratador quer. Não sou pássaro de gaiola nem libertino que se contenta somente com a penumbra das salas de sexo. Não existe aventura se não há quem se aventure. Enquanto o forista incrédulo compunha as elocubrações, o DJ botou nas caixas um clássico gay.

Crystal Waters – Gypsy Woman

Confesso, seduzido por aquele ambiente liberal, diante daquela loira absurda, eu me empolguei, soltei a franga, dei gritinhos em tom de Michael Jackson, rodopiei, acho que até rebolei. Gisele roçava em mim, me aplaudia, ria, me olhava espantada, como uma pastora que converte um seguidor. O lugar lotou, o ar-condicionado não dava mais vazão, eu suava. Gisele puxou a minha cabeça e me beijou. Permita-me repetir a exclamação: puta que pariu! Que beijo. Sugeriu que sentássemos, jogou suas pernas sobre as minhas pernas, enlaçou meu ombro com o braço e continuou se remexendo no embalo do som. Do nada, contrariando todas as melodias que tocavam no Palácio, ela sussurrou com voz doce uma letra no meu ouvido:

“Se acaso me quiseres
Sou dessas mulheres que só dizem sim
Por uma coisa à toa, uma noitada boa
Um cinema, um botequim

E se tiveres renda
Aceito uma prenda, qualquer coisa assim
Como uma pedra falsa, um sonho de valsa
Ou um corte de cetim”

Perdoe-me novamente o palavrão, perseverante leitor, mas que caralho. Até os pelos do meu nariz se arrepiaram. Gisele tem olhos cor de mel, eu a encarei e ela disse que queria sair dali.

— Pra onde? — a pergunta idiota foi minha.

— Pra onde você me levar…

— Cadê a tua namorada?

— Ah! A gente está dando um tempo.

Saímos do Palácio de Cristal e nos acomodamos em um bar da Gomes Freire, aonde chegamos de mãos dadas. Meu combalido coração lutava para não se entregar aos desvarios do amor. Terminamos numa alcova simples do Hotel Estadual, dessa vez ela se entregou num boquete sem camisinha, finalmente ejaculei. Saí de lá quando os raios de sol já invadiam o quarto, paguei o cachê da menina e, a pedido dela, deixei paga uma diária do hotel. Virado, com a vista exausta, encontrei o Sucatão refletindo as primeiras luzes da manhã em sua surrada carroceria. Insiro a chave, giro e o motor grita como quem comemora uma vitória. Ligo o som e acelero.

Goldeneye

A partir de agora, qualquer aventura é possível….