Quando cruzei a Cinelândia, saindo da rua Senador Dantas, avistei a Biblioteca Nacional e me lembrei das tantas tardes que passei enfurnado ali, lendo, me alienando da vida real, perdido entre dezenas livros e infinitas reflexões. Certa vez, pedi Dom Quixote sem saber que havia escolhido um exemplar raro, após alguns minutos chegou-me um calhamaço enorme, com gravuras fabulosas de Gustave Doré. É estranho, mas guardo saudade dessas tardes serenas em que eu podia me abrigar na Biblioteca Nacional e naufragar no meu universo paralelo. Talvez, por ler muito, assistir a muitos filmes, eu também tenha me tornado um personagem quixotesco, cavalgando no asfalto com o meu fiel Sucatão, buscando musas e enfrentando os riscos noturnos.

Na noite de quinta-feira decidi sair, me atrasei devido a questões profissionais e só consegui desenrolar tudo quando a hora adiantada já não aconselhava visitar qualquer bordel. Calculei qual rumo tomar neste Rio de Janeiro esvaziado de opções e escolhi a Lapa, ir ao bar do Baiano, na árida rua da Relação. Antes, fiz um aquecimento no restaurante Tipicamente, na bucólica Tijuca. Enquanto tomava meus chopes acompanhado com pasteis, uma antiga balada que transpirou das caixas de som trouxe a inspiração que eu precisava.

INTO THE NIGHT

Alterado pelo álcool, com as veias fluindo a felicidade artificial que brota da insistência nas tulipas, preferi pegar um táxi e não me expor à Lei Seca. Aqui voltamos ao início, afeiçoado forista, quando topei com a Biblioteca Nacional e com a minha alma de Quixote. Desembarquei logo depois dos arcos, o chuvisco que continuava a molhar as calçadas não aliviava o calor tropical, as luzes de neon brilhavam na luta contra o céu negro e sem estrelas. Vestido com o meu uniforme negro de caça, eu transpirava sob a blusa que me cobria, mas pisava firme com minhas botas pela av. Men de Sá. Entrei pela rua Gomes Freire, prossegui até a rua da Relação, mais alguns passos e alcancei o Baiano. O movimento boêmio pulsava forte, o bom nordestino me viu, puxou uma cadeira e me sentei.

— Vai de Salinas, dotô?

— Claro — respondi ignorando a possibilidade de não ser uma boa ideia misturar cachaça com chope.

Quando você rompe o quarto copo de cachaça, é inevitável que o mundo mergulhe em uma metamorfose, que as luzes se acentuem, que a pupila se dilate, que todo o caos e todo o desencanto renasçam como esperança, que a baranga exiba o reflexo de uma linda borboleta e que todas as mariposas frígidas pareçam estar prometendo amor eterno ao seu coração desiludido. Na quarta dose de cachaça, você acredita que a felicidade existe. Quase em êxtase, tomado pelo mais profundo espírito ébrio, perguntei ao Baiano se existia algum point onde eu pudesse procurar um corpo quente para me consolar.

— Tem um inferninho novo, dotô. Chama Palácio de Cristal. Segue aqui pela Ubaldino Amaral, vira em direção aos Arcos, vai pelo lado esquerdo. É um sobrado e fica gente na porta pra receber. Lá rola de tudo, dotô. Do jeito que o sinhô gosta.

O “rola de tudo, do jeito que o senhor gosta” soou como um enigma, mas eu já estava tão embriagado que não quis me dar ao trabalho de decifrar a sentença. Pedi a conta e ouvi uns acordes reincidentes no bar do Baiano que me levaram a suspeitar que é um estabelecimento que está optando pela festiva vibração gay.

VILLAGE PEOPLE

O foda é que esses hinos gays me causam um desejo de dançar incontrolável, é como se Madame Satã quisesse possuir a minha carcaça caquética para saltar pelas calçadas como um Baryshnikov ensandecido e sofrendo de artrose. Fui andando, em passos sinuosos, que poderiam me levar tanto ao Palácio de Cristal como à Realengo, meus olhos estavam vesgos da cachaça e precisei me concentrar para não ver trinta bifurcações imaginárias à minha frente. Um velho cachaceiro, seria uma vergonha se não fosse assim que eu evocasse o meu alter ego batizado como Dante, todos nós temos um superpoder, todos nós somos heróis de nós mesmos quando descobrimos a nossa identidade submersa.

A Lapa foi o berço da prostituição carioca e reinou como a grande dama da noite em vários períodos da história boêmia. Aos poucos, a promiscuidade parece estar ganhando espaço no seu território de origem. Peço desculpas, estimado forista, mas não conseguirei dizer qual o numeral que identifica o Palácio de Cristal na Men de Sá, eu mal enxergava as minhas botas, mas sou capaz de oferecer as coordenadas que facilitarão a tarefa de encontrá-lo. A boate (se é que posso chamar assim) fica na metade do percurso entre a rua Ubaldino Amaral e a rua do Rezende, é um sobrado cinza de porta verde, um rapaz de aparência feminina estava à porta distribuindo uns panfletos. Havia um pequeno painel vermelho piscando “Palácio de Cristal”. Achei criativo nomear um sobrado mastigado pelo tempo como palácio de cristal. O jovem dos panfletos botou a mão no meu ombro quando parei em frente à entrada.

— Vai entrar — levei um susto porque o tom da voz soava idêntica à do Michael Jackson.

— Acho que sim.
— Seu nome?

— Dante. Meu nome é Dante.

O rapaz ignorou a indecisão, anotou um garrancho no papel, meteu uma comanda entre os meus dedos e me empurrou para dentro.

Subindo o longo lance de escadas, pude ouvir a balada cinematográfica que vinha do andar superior.

MISERLOU

Quando alcancei a pista, a visão de um novo mundo se descortinou diante dos meus olhos, me senti como Colombo descobrindo a América, como um Viking encarando todos os infinitos mistérios de um novo oceano. Neste momento, a tonteira me bateu mais forte, procurei uma cadeira vaga para me sentar e poder ter certeza do que eu via. Inspirei fundo aquele ar lascivo que pairava misturado a iluminação azulada, mas uma voz com timbre de goiabada suspendeu meu fôlego.

*******************************************************

INT. BOATE – NOITE

DANTE senta-se em uma mesa lateral, que oferecia visão ampla da boate. O ambiente claustrofóbico é dominado por uma iluminação azulada, nuvens brancas de fumaça de cigarro atravessa os feixes de luz, as paredes refletem sinais de umidade e mofo, a música toca em volume ensurdecedor. Uma voz feminina em tom malemolente se põe em frente à mesa e puxa conversa. Apresenta-se como MONIKE “com K”. DANTE ficou em dúvida se a mulher era realmente mulher.

MONIKE
Meniiiiiiino! Tu é a cara daquele repórti. Qual nome mesmo? O da Grobo. Ahh! O André Luiz Azevedo. Aaai! Que luxo, meniiino.

DANTE esboça um sorriso trêmulo, de quem se acostumou a ser confundido com Cuoco e com o repórter.

DANTE
Já me disseram que pareço com ele, mas não sou, não.

MONIKE
Mas você também se parece com outro famoso…

DANTE
Quem?

MONIKE
Clóvis Bornay. Meniiiino, você parece a reencarnação do homi. Deus conjuro.

DANTE novamente sorri trêmulo, acena para um garçom baixinho que transitava veloz como um mosquito sobrevoando as mesas.

DANTE
Por favor, me diz uma coisa. Tem Salinas?

GARÇOM
Vou arrumar sal pro senhor, mas pra quê? Tá com a pressão baixa?

DANTE
Não, rapaz. Não é sal. É Salinas. A cachaça. Tem?

GARÇOM
Cachaça tem sim: 51 e Ypioca.

DANTE
Vai Ypioca. Pode trazer.

DANTE aproveitou para olhar melhor o entorno. O Palácio de Cristal se mostrava um lugar pansexual, mulheres e homens exercendo sem pudor ou culpa a liberdade de gênero, de escolhas, de prazeres. MONIKE, que havia se afastado quando confirmou que DANTE não passava de um anônimo, retornou para próximo da mesa onde ele estava acomodado e reiniciou o diálogo.

DANTE
(Sussurra para si)
Pelos deuses… Um pouco de compaixão.

MONIKE
Meniiino, tu é tímido assim mermo? Tu é o quê? Gosta da fruta ou gosta do caule?

MONIKE termina a frase com uma risada aguda e interminável.

DANTE
Como assim? Fruta? Caule?

MONIKE
Ai, meniiino. Não sei se tu prefere fruta ou caule, mas já sei que tu é lesado.

MONIKE joga a cabeça para trás e para frente, algo semelhante a um ataque epilético, emitindo uma risada ainda mais estridente e mais longa.

DANTE
Eu gosto de mulher, mas não sei se é a melhor opção.

MONIKE
Uiii… ele é hetero. Fofo. Mas é versátil?

DANTE
Como assim versátil? Minha fabricação é antiga, ainda não havia essa tecnologia.

MONIKE começou a se sacudir de uma forma assustadora, agora a gargalhada alcançava a histeria. Afastou-se outra vez. O garçom surge suado com um copo de geleia e um líquido amarelado dentro. Quase jogou o copo na mesa.

GARÇOM
Não tinha mais Ypioca. Essa aí é 51. Bom apetite.

DANTE
Bom apetite?! Não pedi comida.

Não houve tempo para esclarecimentos. O garçom esvaneceu-se na velocidade de mosquito e dissolveu-se na penumbra. DANTE vira o copo de geleia em uma única golada e o que era para deixá-lo mais embriagado, bateu como um antídoto que o trouxe à força para a realidade.

DANTE
(Pensando)
Que porra que estou fazendo aqui?

O garçom reaparece na mesa de DANTE com respiração esbaforida.

GARÇOM
Mais algum pedido? A cozinha vai fechar. Tava boa a empada?

DANTE
Que empada? Eu pedi cachaça.

Com os olhos rodopiando, o garçom deu meia volta e sumiu. DANTE ficou observando aquele sujeito rasgando o salão em alta velocidade e deduziu que devia estar sob efeito de algum alucinógeno. De repente, DANTE vê uma loira atravessar a pista devagar, no sentido oposto ao garçom veloz, esguia, cabelos compridos, minissaia branca que deixava à mostra um par de coxas grossas e com músculos bem marcados. Os olhos de DANTE salivaram. Ele aproveitou que o garçom orbitava outra vez pela órbita da sua mesa e o chamou.

DANTE
Amigo. Pode me ajudar aqui?

GARÇOM
Outra empada? Tenho que ver se a cozinha já fechou.

DANTE
Não, querido. Eu nunca pedi empada. Eu queria uma informação, se você puder me dar.

GARÇOM
Pois não. Pode perguntar.

DANTE
Você conhece aquela loira que está ali no canto da pista conversando com a morena?

O garçom vira o pescoço tão rápido para a direção apontada que DANTE teve a impressão de ouvir um estalar de ossos.

GARÇOM
Conheço. Tá sempre aqui. Faz programa aqui na Lapa.

DANTE
(Pensando)
A teoria se confirma sempre, libertinos e putas se atraem como mercúrio.

GARÇOM
Mais alguma coisa? Outra cachaça?

DANTE
Pega mal se eu mandar uma bebida pra ela por minha conta?

GARÇOM
Pega não. Vou falar que o senhor tá chamando.

Antes que DANTE pudesse impedir o garçom de cumprir a missão, ele estava longe, indo em direção a loira, na irrefreável velocidade sinuosa do mosquito. Em poucos segundos voltava trazendo a mulher.

GARÇOM
Gisele, esse moço aí quer te pagar um drink. Vai de quê?

DANTE se afunda na cadeira dura, mas logo se recompõe, tentando se mostrar confiante. A loira o analisa de cima a baixo como um veterinário dissecando uma rã.

GISELE
Maquita, traz Amarula.

O garçom some e Dante fica refletindo sobre aqueles dois nomes, Gisele e Maquita, antes de elaborar algo para dizer.

DANTE
Gisele… Bonito nome.

******************************************

PARTE 3 – CONCLUSÃO

(Retornando à narrativa tradicional)

Gisele sentou-se à minha frente, o garçom, que só andava na velocidade de mosquito, veio um copo de Amarula, também em um copo de geleia. Sim, pude ver de perto e confirmar que Gisele tinha a estampa de uma loira vistosa, com um corpo que me despertou a libido.

— Você está sozinho aqui? — ela me perguntou

— Estou. E você?

— Com a minha namorada — disse isso apontando para uma menina em que custei a identificar os traços femininos.

— Ela não vai ficar chateada com você sentada comigo?

— Ah, não. Ela sabe que é trabalho.

Comecei a entrevista básica para saber o que eu poderia esperar da loira. O boquete seria com camisinha (inegociável), poderia rolar anal se eu quisesse, beijo na boca permitido. O boquete com camisinha me desanimou tremendamente, mas diante da beleza da garota decidi ir em frente com as negociações.

— Mas onde a gente pode ficar junto? — perguntei.

— Você que sabe. Pode ser em algum hotel perto ou aqui na boate.

— Tem quarto aqui?

— Tem o banheiro.

Não seria a primeira vez que eu transaria em um banheiro, meu primeiro sexo em banheiro foi num banheiro químico do Piscinão de Ramos. Topei. Gisele me orientou a encerrar a conta com Maquita, o garçom que tinha nome de ferramenta de pedreiro, segui as instruções, ela me pegou pela mão e me conduziu iluminada pelas sombras.

Entramos no banheiro masculino, três cabines com porta de madeira e pequeninas frestas viradas para o alto. Em uma das portas, pude ver, havia uma cueca pendurada. Ela me puxou para a porta do meio. Não, o banheiro não exalava limpeza, o que me deixou desconfortável. Começamos o ato nos beijando, Gisele beija muito bem, com entrega, puxou minhas mãos para pegar em sua bunda, fui puxando a minissaia dela para cima, estava sem calcinha. Pikachu se empolgou, mesmo nauseado com a catinga de urina que subia do piso. Para um libertino não existe tempo ruim, libertino é o homem que mija em pé.

Gisele arriou a minha calça, quase me tirou a cueca pela cabeça, abaixou o corpo e me engoliu num boquete fenomenal (de camisinha). Que boquete. Fiquei de pé enquanto ela me chupava, não tive coragem suficiente para sentar a minha bunda nua na tampa da privada que parecia infectada com germes da pré-história. Eu me espremia nos ladrilhos de tanto tesão com a boca da garota, cheguei a pensar em gozar daquele jeito, mas resisti. Parei tudo e pedi que ela se apoiasse na parede, por cima do vaso sanitário, ela me atendeu e empinou o rabo para facilitar a minha penetração. Pikachu estava em órbita, quase sendo chamado de Pica das Galáxias. O pênis é um acessório temperamental do corpo humano, eu estava bêbado, trepando no meio do mijo alheio e Pikachu estava mais empolgado do que se estivesse hospedado no Hotel Fasano comendo uma top model sobre um lençol de cetim. Muito excitado, bastaram poucas estocadas para que eu gozasse toda a minha árvore genealógica. Eu suava como um frango girando na vitrine da padaria. Gisele se recompôs, estendeu a mão para receber a grana e saiu.

Puxei de volta a minha calça, voltei para o salão e dei uma última olhada. As caixas de som vibravam forte com uma música moderna (I Wanna Go), avistei Gisele dançando como uma enguia erótica, de frente para uma mulher que parecia figurante de um episódio de “Carga Pesada”. O garçom Maquita me abordou.

— Vai outra empada? Tem ainda.

Definitivamente, empada deveria ser o código de Maquita para cachaça. Desci as escadas do sobrado e me vi envolvido pelo ar da madrugada. Respirei fundo e deixei que a noite me respirasse. Do alto do sobrado, o som frenético também ganhava as calçadas da Men de Sá. Pulsou em mim a euforia de quem sabe que está vivo. Talvez, o que me mova atualmente não seja mais o sexo e sim a adrenalina. Meu nome? Me chamam DANTE.