Uma, duas, três doses da pinga reforçada com catuaba. Foi quando ela surgiu, talvez na aparição mais cintilante dos últimos anos, adentrou imperiosa sobre o chão de cerâmica daquele boteco imundo do Centro da Cidade e me enredou com um beijo de sede. Bela, vaporosa, etérea, fugidia: a Felicidade. 

Sim! Se você está percorrendo as sinuosas linhas que tracei nas páginas deste diário, saiba que existe uma fórmula secreta contra a depressão. Ela está oculta a sete chaves pela indústria farmacêutica, é protegida com destemor por médicos que agem como Cavaleiros Templários guardando o Santo Graal.  Duas medidas de caninha para uma de catuaba e está feita a revelação. Ninguém imaginaria que uma mistura tão simples guarda o poder de incendiar corações. Beba até sentir a presença de uma euforia irrefreável, seus olhos ficarão aptos a enxergar o brilho das superfícies mais foscas e o seu sorriso brotará numa contração involuntária dos lábios. Quando atingir esse ponto, cesse os tragos, desfrute do momento. Sua mente desabrochará esponjosa, capaz de vislumbrar os mais altos graus do conhecimento; todas as preocupações deixarão de existir; sem passado e nem futuro, o mundo se apresentará como o mais absoluto e concreto presente. Finalmente, você saberá o que é estar vivo.

Chequei àquele botequim sujo com o espírito coberto por andrajos, um trapo dissecado pela emoção mais vulgar da humanidade, o amor. Eu não saberia explicar com clareza as justificativas que a fizeram me abandonar. Acordou com um olhar indecifrável, murmurou que eu não havia progredido em nada, me rotulou como um homem fracassado e sentenciou que estava indo embora. Como reagi?… Como se reage a um tiro? Minha reação foi o silêncio do incrédulo, foi a perplexidade do cético diante do improvável. Paula estava me largando, sem cerimônia, sem pudor. 

Mais do que uma paixão, Paula era um hábito fervoroso. Tê-la ao meu lado configurava-se na única certeza que eu possuía nesta abstração universal em que vivemos. Não me importo em utilizar de um clichê para situar minha tragédia peculiar, realmente faltou-me o chão. Passei semanas com a sensação de uma vertigem aterradora, que não me permitia sair da cama. Ansiava por um telefonema, por um sinal de arrependimento que não vinha. Minha mente equilibrava-se trêmula, saltando entre os degraus da razão e a febre da insanidade temporária. 

Não mais suportando a ausência dessa amante de tantos anos, dei início a um calvário espontâneo que desenhou o golpe de misericórdia naquilo que me restava de humano, sequei o riacho da dignidade. 

Todos os fins de tarde eu me postava em frente ao prédio em que ela trabalhava na Rua da Assembleia, esperando a oportunidade de encontrá-la para obter a brecha por onde eu suplicava pela sua volta. Paula me recebia com o mais repulsivo desprezo e se negava a ouvir qualquer palavra que eu pronunciasse. Esbravejava que eu a estava perseguindo, que tomaria providências. Passou a sair acompanhada do escritório, uma forma eficaz de impedir minha aproximação. 

Muitas vezes, caminhei léguas pela Av. Rio Branco até o Aterro do Flamengo tentando substituir a dor emocional pelo esgotamento físico. Inútil. O que eu consegui foi somar a depressão com a falência do corpo. 

Decidi trocar os plantões vespertinos na Rua da Assembleia por telefonemas diários, uma opção menos cansativa, mas igualmente estressante. Paula desligava no exato minuto em que reconhecia minha voz. Eu persistia, pois a insistência é o maior patrimônio do insensato. Tudo em vão.

Você, na posição de cúmplice e confidente, qual o seu diagnóstico? Que espécie de sabor adocicado ela poderia encontrar na amargura da rejeição? 

Miltinho Dois Calos, um apelido da juventude para o meu colega de copo, um dos mais famosos bígamos do Bairro de Fátima, definiu que crueldade humana perante a fraqueza do semelhante é o que constrói nossa cadeia alimentar. Que grande pensador o Miltinho!

Minha última e desesperada tentativa de reconciliação foi enviar a Paula um buquê de flores, junto com ele seguia um cartão em que empenhei toda a ruína que a saudade da nossa convivência me causava. As flores retornaram, ela se negou a recebê-las, sequer passou os olhos pela extensa e embriagada carta que compus. Foi essa derradeira humilhação que me levou ao primeiro botequim decadente com o qual cruzei, foi essa morte em vida que me fez recorrer à mistura ancestral ensinada pelo meu estimado e falecido avô, a caninha com catuaba. 

Saí do bar a passos trôpegos, precisava respirar, mudar o foco. Caminhei da Praça Mauá à Travessa do Ouvidor, esbarrei inesperadamente com uma livraria e ali pousei minha fadiga. Posso afirmar que no próximo parágrafo se iniciará o clímax deste relato. 

Não sei como o meu diário caiu em suas mãos, desconheço qual motivo levou você a passear os olhos invasivos pela minha jornada, mas se renunciou aos escrúpulos para mergulhar indiscretamente na minha privacidade, certamente nutre competência suficiente para assistir aos próximos atos desse espetáculo burlesco. No entanto, não deixarei de alertá-lo, não abdiquei completamente das minhas responsabilidades. Se prosseguir, prepare-se para a onda que se levantará, ela engolirá sua alma numa única mordida e mudará o sentido dos trilhos que conduzem o seu destino, será inevitável se desencaminhar. 

Ele estava exposto na bancada logo atrás da porta de vidro que nos convida a entrar. Sereno e silencioso, assim são quase todos os livros que escondem chamas rebeldes sob a proteção da capa: A Filosofia na Alcova, do famigerado Marquês de Sade. Tomei-o nas mãos sem nenhuma atenção especial, folheei sem esperar nada além de pornografia literária. Talvez, por estar com a mente desarmada e com o coração decapitado, fui rodeado rapidamente pelas páginas incandescentes. Decidi comprá-lo para ler atentamente quando retornasse a minha casa. É a partir daqui, criatura intrusa, que meus vagões descarrilaram. 

Descobri em Sade um mentor, sua filosofia retirou a venda dos meus olhos, me despertou de um coma profundo. Eu era cego e ele me fez enxergar, eu era cadáver e ele me ressuscitou. Para poder lhe oferecer uma visão geral, anônimo par de olhos que me observa, no mundo de Sade o crime é a lei e a lei é um dispositivo artificial para nos afastar dos complexos deleites que nos cercam. Leis são grilhões para alguns dos nossos mais espontâneos instintos. O criminoso não é um bandido, mas um agente autorizado pela Natureza com a missão de renovar a massa de energia que a constrói. Sade insiste que nem mesmo um assassino comete um ato hediondo, ele apenas antecipa um processo da transmutação: “o homem que destrói seu semelhante é para a Natureza aquilo que para ele é a peste ou a fome”. 

Sade continua a explanação: “Então, um Soberano ambicioso poderá destruir à vontade e sem o menor escrúpulo os inimigos nocivos a seus projetos de grandeza… Leis cruéis, arbitrárias, imperiosas, poderão da mesma forma assassinar em cada século milhões de indivíduos… E nós, fracos e infelizes particulares, não podemos sacrificar um único ser às nossas vinganças ou aos nossos caprichos? Existe algo mais bárbaro, mais ridiculamente estranho? E não devemos, sob o véu do mais profundo mistério, nos vingar amplamente dessa inépcia?”

Como um homem que passou grande parte da vida em prisões foi capaz de traduzir com limpidez a verdadeira essência da liberdade e do prazer libertino?

Não me veja como um ingênuo sendo desviado da moral por palavras de efeito. Sou um homem culto, de boa aparência, um funcionário público que ultrapassou a curva dos quarenta anos de idade, não me iludo com qualquer asnice. Você é testemunha de um herege que encontrou sua própria bíblia.

A forca para o pescoço de Paula estava montada e eu seria o seu cadafalso. Ela precisava morrer para que eu alcançasse a libertação. Porém, não pretendia somente eliminá-la, queria saborear o sofrimento que precede o último suspiro. Nascia a necessidade de engendrar um plano. 

Como matá-la? Eu não possuía arma de fogo, nem mesmo sabia onde poderia conseguir uma. Mas a mão justa do acaso conduz à luz aqueles que encontram sua estrada interior.  

Numa dessas tardes quentes do Rio, daquelas que nos trazem a sensação de habitarmos o escaldante Outback Australiano, transitando a pé pela Rua Frei Caneca, avistei um hipnótico punhal de prata na vitrine de um Antiquário. Ele reluzia ao Sol e quase que nos intimava a tocá-lo. Vislumbrá-lo me causou um fascínio inexplicável.

Admita, seus olhos são dois globos viscosos repletos de uma extravagante curiosidade mórbida, mas seu raciocínio é perspicaz se concebeu que aquele punhal seria a ferramenta escolhida para o meu propósito. Você está certo! Não perdi tempo em invadir o Antiquário e arrebatar a peça antiga por um naco razoável de dinheiro. Ao voltar para casa à noite, coloquei a pequena antiguidade sobre o livro de Sade e por bom tempo fiquei flertando com a lâmina prateada. Concebi todos os passos para extirpar Paula. Eu estava disposto a atingir os limites, só por isso o meu projeto não temia o insucesso. 

Diga-me com sinceridade, meu alheio interlocutor, quem nunca pensou em matar alguém? Quem, nos calabouços mais obscuros da mente, não tramou um assassinato, mesmo que nunca o realizasse? Por favor, não sejamos hipócritas. Livre da ilusão dos beatos moralistas, eu estava prestes a consumar um dos maiores desejos do inconsciente coletivo.

Precisei de parcos dois dias para me preparar. Foram suficientes para que eu novamente acampasse na velha Rua da Assembleia, esperando a aparição da mulher que me dilacerou a alma. Tudo seria simples e rápido. Quando a visse, cruzaria à sua frente e fincaria com vigor o punhal em seu ventre. Minha intenção era encarar o seu rosto contorcido, sorver a dor, respirar seu último suspiro, sentir a vida esvair-se. Que delícia será! A vingança não é pecado, é virtude.

De repente, ela rompeu a portaria do prédio, com aquele ar de nobreza que a circundava. Paula sempre foi dona de uma beleza que intimidava. Alta, esbelta, classuda, parecia guardar traços da aristocracia mineira que deu origem a sua família. Lancei-me em passos de avestruz, não havia tempo a perder, o golpe precisava ser veloz e certeiro. Finalmente, estávamos frente a frente. Saquei o punhal do bolso, ergui-o no ar, mas hesitei diante da expressão de fria perplexidade da vítima. Aqueles poucos segundos em que congelei o meu ímpeto bastaram para ela revidar a ação que não cometi.

– Você é um palhaço! – Exclamou com ênfase e voz alterada.

Como ela conseguia manter-se desafiadora mesmo diante do provável fim da sua miserável existência? Ao me ofender com a frase bem amolada, me desarmou pela vergonha. Fui possuído por uma ideia corrupta de me ajoelhar diante dela desejando ser açoitado. Num reflexo do mais puro desalento, estendi o meu pulso e o cortei com a lâmina afiada da arma que eu ainda segurava. Primeiro veio a forte ardência, depois o sangue vermelho rubro brotou num jato que atingiu o rosto de Paula e continuou jorrando em correnteza pela minha mão. Apaguei.

A lacuna da minha saga me foi narrada pela médica que me recepcionou na Clínica Psiquiátrica Dr. Eiras, em Botafogo. Meu irmão foi o responsável pela minha internação e o objetivo era cuidar do forte estresse emocional que identificaram em meu comportamento. 

Dra. Hannah Sobolwsky, uma psiquiatra polonesa radicada no Brasil, não era bonita, mas carregava uma aura gelada que a tornava atraente ao extremo. Numa rápida conversa, ela indicou a suspeita de que padecesse de uma psicose com raiz passional. Reconheço que, invariavelmente, quando assolado por alguma doença, os sintomas me soavam como algo abstrato demais. Seu primeiro conselho foi sugerir que eu escrevesse um diário, que eu expusesse minhas aflições íntimas e rascunhasse o meu dia-a-dia. E é o resultado dessa prática que você apara furtivamente nas mãos.

Medicações, conversas infindáveis, questionários semanais, mas a Dra. Hannah não se deu por satisfeita. Queria utilizar em mim o eletrochoque, tratamento que acreditava ser o mais adequado à minha cura definitiva. Durante todo esse período, não me esqueci de Paula. Ninguém da clínica me oferecia notícias sobre ela, nem mesmo permitiam que eu estendesse o assunto. Porém, eu precisava dos seus olhos de desdém, do seu deboche ferino, da sua indiferença proposital. Eu a idolatrava!

Duas semanas correram, alcançamos a data em que eu seria submetido à primeira parte do tratamento com choques. Fui amarrado a uma maca, eletrodos colados às minhas têmporas e uma barra emborrachada encaixada entre os meus dentes. Com um pequeno abanar das mãos, a Dra. Sobolwsky autorizou que acionassem a descarga elétrica. Acredite, o espasmo do corpo me fez pensar que todos os meus ossos haviam se quebrado. Tive um desmaio e me transportei para uma imensa planície verdejante, a paz que eu almejava. Alguém me reanimou e detonou a segunda carga, meus olhos ficaram abertos por uma breve fração de segundos e pude flagrar um minúsculo e sutil sorriso de satisfação nos lábios da Dra. Hannah. Novo desmaio.

Despertei acomodado confortavelmente no quarto do hospital, mas com os pensamentos girando num redemoinho de imagens confusas. Aos poucos, fui recuperando as rédeas da consciência. Algumas horas haviam rolado quando a Dra. Hannah Sobolwsky entrou para me visitar. Com o seu sotaque acentuado e duro, declamou as perguntas de praxe para avaliar como eu me sentia. Então, me avisou que na manhã seguinte iria repetir a sessão do tratamento radical. Talvez fosse uma alucinação causada pelos choques, mas notei um toque morno em sua voz ao me informar sobre a tétrica programação que me aguardava. Uma sensualidade na voz, na face, nos gestos, algo que não transpareceu antes. À noite, ela retornou para me examinar e me aconselhou a ignorar Sade. Trouxe um livro que assentou na cabeceira: A Vênus das Peles, de Sacher-Masoch. Declarou que essa obra me ajudaria a compreender minha real condição e me classificou como um masoquista psicótico, num nível tão avançado que poderia levar a uma postura esquizoide.

De repente, a psiquiatra passou os dedos pelos meus cabelos e me alertou que a carga que me imporia na próxima fase do tratamento seria mais forte e a dor muito opressiva. Disse isso com aquele laivo de sorriso discreto que pressenti com os eletrodos grudados nas têmporas. Uma misteriosa energia me envolveu, uma sorrateira expectativa me roubou o sono. Eu me rendi à ansiedade brutal de querer estar amarrado aos pés daquela mulher, na mais absoluta submissão. Seria capaz de implorar-lhe para receber os choques impiedosos como quem é castigado por chibatadas e não evitarei espiar o êxtase que o meu sofrimento irá lhe trazer.

Paula desapareceu subitamente da minha memória. Era o início da cura. Não sei o que virá amanhã. Encerro aqui as minhas anotações, mas é preciso confessar desde já: eu a amo, Dra. Sobolwsky.