Sempre fui um tímido irremediável e a timidez talvez se imponha pela forma que somos criados, pela postura da família no cultivo das nossas fragilidades. A timidez é a ditadura da insegurança sobre a personalidade, foi um fator que me perturbou por toda a vida e a incapacidade de libertação de mim mesmo me prejudicou em muitas ocasiões. A timidez constrói um cárcere quase inexpugnável. Houve época em que pensei no teatro como solução para tentar rachar os muros que me prendiam, acompanhava um amigo que fazia curso no Tablado para assisti-lo e tomar coragem de investir na minha elevação aos palcos. Não aconteceu, desisti.

Com o tempo, criei estratégias para disfarçar a minha introspecção, a minha falta de assunto com quem eu convivia sem ter intimidade. Sou silencioso e a timidez não melhora com o tempo, o que se aprimora são as nossas coreografias para driblá-la. Infelizmente, em casos como o meu, essa característica funesta se transfigurou em outra pior quando entrei pela maturidade, comecei a sentir fobia de gente, fui me tornando um misantropo.  Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é — cantou Caetano. É verdade, existem delícias e prazeres na solidão, mas também encontramos a dor do desamparo, a melancolia e um empobrecimento intelectual por querermos ser ausência e não presença. Guardamos a necessidade irrefreável de expressão e a timidez é censura, foi na escrita que encontrei o meu plano de fuga.

Como um libertino por ser libertino se for tímido? — perguntaria algum leitor mais atento.

São raros, mas existem. Atente, não classifico como libertino somente o sujeito que mantém relações comerciais com mulheres da vida, pelo contrário, o libertino é aquele personagem muito mais afeito a seduzir do que a pagar. Foram três etapas que me gestaram como libertino: a primeira eu superei quando o sexo se sobrepôs a ideia idílica do romance; a segunda nasceu quando o sexo se tornou uma fome tão insaciável quanto a sede dos vampiros; e a terceira fase eclodiu quando mapeei caminhos que contornaram a timidez para que eu pudesse seduzir. É certo que a idade arrefece um libertino, mas não cura.  

Acredite, leitor sem fé, iniciei-me como um sedutor através de uma seção sentimental do antigo jornal Balcão, na década de 80, onde mulheres colocavam anúncios em busca de namorados, ali eu era um jovem lobo à espreita. Meu trunfo era a escrita. Minhas cartas, obras-primas que superavam a lábia de qualquer Casanova e quando alcançava o contato telefônico, já havia ensaiado para ser o locutor do amor. A elaboração dessas cartas me preparou para a chegada da Internet e dos sites de relacionamento como o Par Perfeito e Como Vai, quando meus e-mails tinham a força de torpedos que incendiavam os corações mais frígidos. Com esse binômio mensagem e telefone, fiz sexo com um número incontáveis de mulheres que se apresentavam buscando romance, mas que não se negavam a experimentar momentos lascivos. Neste período jamais fui Dante ou usei meu próprio nome, fui Vinícius, pois para enganar a minha insegurança, transpor o meu silêncio, arquitetei o ator que não fui, criei um personagem. Loucura? Talvez, mas é a loucura que liberta.

De certa maneira, fui super-herói de mim mesmo, montei uma identidade secreta, costurei a máscara que gerou um personagem com forte poder de persuasão. Fiz sexo com mulheres lindas que conheci no início dessas ferramentas virtuais de relacionamento, com algumas me relacionei, com poucas rompi o personagem e me apresentei como o homem problemático que sou. Passei alguns anos conhecendo uma quantidade de mulheres que não consigo mais mensurar, muitas que se apaixonaram pelo “Vinícius” e outras pelas quais o ator do “Vinícius” se apaixonou. A gestão das minhas identidades exigia uma logística complicada, principalmente, quando eu me interessava em prosseguir na relação. Sorte que cresci criativo.

Não nego, amigo leitor, eu mentia muito, até porque não se pode criar um personagem sem mentir, não é possível deixar o próprio eu para se tornar outro sem mentir. A minha grande virtude como ator é que eu acreditava na mentira e no personagem, incorporava os dois. Sim, eu enganava as mulheres, mas isso também é ser um libertino, para o bem ou para o mal.

Os anos passaram, décadas se passaram, nunca me casei e, inacreditavelmente, não tive filhos. A conclusão é que personagens são celibatários estéreis e o libertino é a verdadeira identidade de um homem que celebra a solidão como um culto religioso.