A Praça Mauá e a gentrificação do meretrício

Final dos anos 80 e início da década de 90, fui trabalhar na Praça Mauá, primeiro como funcionário de uma grande empresa privada e depois como concursado em uma estatal. Um tempo em que a região borbulhava de gente, de botecos e boates dedicadas à prostituição. Escandinávia, Flórida, Cabaré Kalesa, MV 30, as noites de amor no Hotel São Bento, no Villa Régia, tudo aos pés do Mosteiro de São Bento. A Pedra do Sal era apenas a Pedra do Sal, onde eu pedia um pingado com pão na chapa, nada tinha a ver com o feudo que se tornou, mas é o feudo que ainda mantém algum vestígio de vida naquela área. Vendo a Praça Mauá dos dias atuais, que decaiu muito mais rápido do que o resto do Centro, sou tomado por uma tristeza nostálgica e por uma conclusão irrefutável, o que sustentou a vida na Praça Mauá foi a prostituição.

Durante o dia e à noite, tudo fervilhava no porto. Lembro-me de um boteco horroroso que exibia o nome de “Tubarão 2” e eu ficava imaginando onde seria o “Tubarão 1”. Muitas vezes, dirigi o carro, na madrugada, estacionava no entorno da praça e entrava na Flórida repleta de marujos e gringos aportados. A Flórida tinha a pista de dança envidraçada, o que lançava os nossos olhos sobre a paisagem magnética da Baía de Guanabara. Os cafetas estendiam bandeiras na porta dos bordéis fazendo referência ao país de cada navio que chegava. Fico imaginando o que deve ser a Praça Mauá durante as atuais madrugadas. Tudo passa, tudo acaba, mas o que observo é que as áreas de prostituição são exterminadas pela gentrificação que se utiliza de supostos motivos nobres. A Praça Mauá sepultou as prostitutas sob o Museu do Amanhã, do MAR e do VLT; a Help, na avenida Atlântica, se tornou o jazigo dos libertinos, enterrados debaixo de um Museu da Imagem e do Som que nunca foi concluído; a Vila Mimosa foi expulsa do seu berço para dar lugar ao Teleporto, a estações do Metrô; hoje, após a abertura da rua Ceará, a Vila Mimosa definha e volta a correr risco de ser empurrada para outro ponto do Rio, vítima da especulação imobiliária ou dos interesses políticos; a Lapa, que foi um dos nascedouros da prostituição carioca, antes reprimida pelo Estado Novo, agora foi transformada em polo de bares da juventude de classe média, espremendo garotas e travestis que tinham ali um local de trabalho. A verdade é que sempre, de uma forma ou de outra, arrumam um jeito para jogarem as prostitutas para debaixo do tapete da hipocrisia.

Temos hoje um prostíbulo vertical, que é o conhecido prédio da Álvaro Alvim, ao lado da Câmara dos Vereadores. Até quando irão permitir? Há muitos anos, havia um prédio semelhante na Senador Dantas, acabaram com a farra ali. O preconceito que expulsa a prostituição de tantos locais da cidade vem acompanhado de motivos que parecem justificarem-se, mas que não passam de ferramentas para impedir o trabalho das mulheres, fazendo com que elas retornem ao domínio dos cafetões ou resvalem para opções que oferecem pouca segurança. A Help, que além de ser uma boate onde homens buscavam o sexo pago, também alcançou o perfil de ponto turístico da cidade, mas então criam o termo “turismo sexual” e imaginam que restringindo lugares desse tipo estão “limpando” a cidade. Garotas de programa exercem uma função social, se avaliarmos com profundidade.

Copacabana, a antiga cidadela do pecado, perdeu grande parte de suas boates. Inventaram um programa de “higienização social” chamado “Copacabana Legal” e hoje o bairro está pior do que nunca no aspecto social. A prostituição não faz mal a nenhuma cidade, o que faz mal a qualquer cidade é esconder a sensualidade, os pontos de prazer, as fugas do estresse urbano. Com o Brasil se tornando, cada vez mais rápido, um talibã tropical, a diversão de homens e mulheres estão ameaçadas por uma possível repressão crescente e puritana.



Um comentário

  1. Meu primeiro emprego foi num banco da rua Mayrink Veiga, isso em 1974 aos 18 anos. Na hora do almoço gostava de fazer uma tour pela Praça Mauá. Me lembrei de outra boate que eu costumei a frequentar quando saía o salário. Cowboy que tinha como um dos sócios o cantor Bob Nelson. Me lembro que quando passava na porta vinha lá de dentro aquele cheiro de criolina. Um amigo me dizia que era cheiro de buça mal lavada. E os vendedores de pomada japonesa? Bons tempos !!

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