Os primeiros raios do sol do amanhecer tentavam romper a barreira das janelas dos antigos prédios e sobrados do bairro da Gamboa, como se fossem rebeldes revolucionários. A meia luz invadia o quarto com sutileza morna e descortinava o corpo ondulado de Elba deitada sobre a cama, refletindo a pele cor de canela, os longos cabelos cacheados e a sensualidade explícita, mesmo quando dormente. O aroma da maresia que vinha do porto acentuava todas as boas sensações. Com os olhos ainda sonolentos, eu vislumbrava aquele mulherão e me sentia secretamente excitado por saber que poderia apalpar aquele continente sexual por outras noites que viriam; um macho orgulhoso e quase incrédulo diante do fato de que aquela pernambucana colossal me queria como parceiro amoroso.   

Conheci Elba no Forró de Copacabana (que até pouco tempo havia se tornado a insossa boate Mariuzinn), no verão noturno de um sábado qualquer do primeiro ano da década de 90. Alta, sensualíssima, rosto bonito, sorriso discreto, carregava o charme e o sex appeal irresistível do nordeste. Recém-chegada de Pernambuco, morava com a irmã, trabalhava como cabelereira no Leme, rodeava pelos vinte anos de idade e transbordava a alegria jovem e selvagem dos trópicos. Quando a avistei no meio da pista, dançando, fiquei embriagado de desejo, a menina tinha o poder de um imã. Fiquei cercando a presa, calculando quando poderia me aproximar e ensaiar o ataque.

Elba ficou solta. Afoito, acelerei em sua direção, convidei-a para dançar (mesmo sabendo do meu fracasso como dançarino de forró), ela aceitou. Envoltos pelo som do triângulo e da sanfona, eu mais parecia um poste do que um arrasta pé. Elba percebeu a rigidez cadavérica do meu corpo para o gênero musical que nos embalava. Quando pressenti que ela me deixaria, sugeri que tomássemos um drink, ela novamente aceitou a minha oferta. Conversamos um pouco, ela me revelou parte da sua história, disse onde morava, contou sobre o seu trabalho. Eu precisava ser rápido em criar o gancho, falei um pouco sobre mim, avisei que estava para ir embora, mas queria revê-la, pedi o telefone, ela não tinha telefone e na época o advento do celular ainda estava distante no tempo. O que fazer? Perguntei se poderia encontrá-la no dia seguinte, ela me passou o endereço e a hora, rua Camerino, Gamboa.

O domingo chegou e eu queria aquela mulher mais do que a desejei no sábado. Minha testosterona circulava no corpo como um agente psicodélico, eu parecia um animal que havia esbarrado em uma fêmea no cio, um estado psicológico semelhante à loucura. Perto do fim da tarde, vesti minha roupa de lobo, peguei um ônibus e desembarquei na av. Presidente Vargas como se fosse um Lawrence da Arábia cavalgando no meio do nada. Atravessei a av. Marechal Floriano e encontrei a rua Camerino, a antiga rua do Valongo, cenário das barbaridades da escravidão. Elba morava em um prédio próximo a rua Barão de São Félix, uma construção de aparência antiga, com pequenas sacadas feitas de grades que beiravam imponentes janelas de madeira pintadas de verde.

Uma tarde quente, eu vestia trajes inadequados para o verão carioca (sempre fui um britânico deslocado na latitude e longitude do mundo). Assim que eu alcancei a Praça dos Estivadores, eu avistei a Elba sentada à porta do endereço que me informou, ela vestia uma bermuda curta e justa que realçava as coxas grossas e uma camiseta decotada cobria com dificuldade seu tronco e seus seios exuberantes. O olhar que ela me lançou foi como um jato de querosene para o meu corpo tomado por faíscas, eu suava envolvido por um incêndio que não era visível.