“O Destino é um Saveiro de velas escancaradas. Com força hercúlea, controlamos o Vento; se enfraquecemos, o Vento nos controla.”

Ele apreciava criar aforismos, mas salvou este último pensando sobre a monotonia, o seu destino havia se tornado um barco perdido num oceano imenso, assolado por uma interminável calmaria.

 Desligou o computador, levantou-se da cadeira, alongou o corpo e foi trocar-se para realizar a caminhada noturna. Antes de sair, olhou-se no espelho, gostava de ver o próprio rosto, não como um narciso, mas para perceber mudanças em sua expressão, descobrir os vincos e rugas que o envelheciam. O espelho o intrigava.

Sentia satisfação no hábito de andar à noite pelas ruas próximas do local onde morava. O seu passado emergia em cada esquina do bairro, surgia em cada praça e podia surpreendê-lo numa face conhecida. Vagava por distâncias compridas, o sangue circulava enquanto seus olhos procuravam um sentido naquele cemitério de lembranças. Sua memória era uma galeria mórbida de fotos em branco e preto, onde os dias simplesmente passaram.

Depois de duas horas perambulando a esmo, retornava a sua casa, um velho sobrado fincado entre prédios, seu vale urbano.

Alguns porta-retratos espalhados pelos móveis lhe serviam como prova para demonstrar que o Universo não se expande, mas encolhe com o correr dos anos. Seus pais faleceram, assim como muitos dos parentes mais próximos. Seus parcos amigos sumiram no redemoinho da vida e ele nunca se casou ou teve filhos. Seus amores eram uma sucessão de abandonos. O que havia lhe restado, como referência na árvore genealógica, era um resumo de meia dúzia de primos. Para estes, talvez, ele é quem houvesse morrido.

“Eles estão enganados, o Universo encolhe até mergulhar num buraco negro. O Universo é autofágico!”

Pensava nisso como a grande descoberta científica da sua existência.

Os cômodos da residência revelavam a desordem de um desleixo cotidiano. Eram poucas as ocasiões em que, despertando da indolência, ele desanuviava o caos do próprio lar.

Sua rotina era construída num silêncio monástico. Ele não sabia quando e nem como, mas tinha a consciência de que havia se tornado um eremita. Com o costume, transformou-se num misantropo, um mutante social.

Seus prazeres apoiavam-se na simplicidade, sentia-se feliz visitando sebos no centro da cidade, tomando uma xícara de café num bar e escolhendo filmes na locadora da qual era sócio.

Quando sua libido clamava por uma mulher, ele procurava as prostitutas. Preferia assim, o sexo óbvio e pago.

Seu trabalho como contador colaborava para que cultivasse sua prática eremítica, isolava-se nos cálculos, concentrava-se em planilhas. Suas relações pessoais eram breves e objetivas.

Não pensava na morte, somente no universo que encolhia.

Era raro, mas acontecia de ser tomado por uma alegria infantil, um entusiasmo súbito por algo que parecia querer puxá-lo do seu confortável torpor.  Ele não sabia tratar com a ansiedade, ele a temia.

Acostumou-se à solidão, era a única emoção que compreendia plenamente, era sua irmã. Quando jovem, a solidão o oprimiu, quase o massacrou, mas ele a domou e ela o serenou.

Acordava, trabalhava, se alimentava, distraía-se com filmes, estudava os livros, caminhava e dormia. Conversava com o silêncio, o silêncio era a voz da sua solidão.

Mas existia uma pequena fenda em sua cela, um rol de ferramentas que o ajudavam a escapar do seu mosteiro todas as noites: uma tela, um teclado e um mouse.

Antes de sentar-se em frente ao monitor, ele realizava um ritual que o revigorava. Tomava um banho, vestia o pijama, fazia um lanche e lia o jornal comprado nas andanças noturnas. O mundo sempre lhe pareceu uma ficção, real além das paredes do seu quarto, mas que ele se limitava a ler com um interesse fugidio, quando estava acomodado em sua poltrona.

Vai até o espelho e ajeita os cabelos. O espelho fazia com que se sentisse um primitivo, fascinava-se com sua imagem refletida. Fita os próprios olhos, busca as próprias rugas, mas não havia nada além de um rosto apático. Desvia o olhar, teme descobrir-se.

Coloca-se em frente à tela do computador, um bem-estar inexplicável o invade, prepara-se para o único contato que lhe é tolerável. O estalido dos seus dedos contra as teclas anuncia que ele existe, um login e uma senha consumam o seu nascimento. Inventa um nome, precisa ser batizado; escolhe o lugar onde quer ser quem é, entra aleatoriamente na sala de um chat; procura algum nick que lhe atraia a atenção: encontra a “Bela e Carente”.

O espelho duplicava o cenário iluminado por uma luz pálida, seus dedos compõem as palavras com a agilidade agitada de asas em voo. Dialoga numa linguagem peculiar, mesclada de abreviações, sem articular som. Num aposento gélido, ligado por fios, cabos, modem, plugs e tomadas, rompia o isolamento…

“Podemos tc?”

Definitivamente, não era mais humano!