Não gosto de me parecer com um passadista, um nostálgico, apesar de ser muitas vezes atentado por esses empuxos que me fazem retroceder no tempo, porém, existem recordações que emergem sem pedir licença, sem explicação. A máquina do tempo mais eficiente que existe é o cérebro, é através dele que voltamos ao passado, supomos o futuro e alteramos involuntariamente as remotas lembranças do que vivemos. Queria ter registrado alguns acontecimentos na época em que os vivi, mas quando somos jovens não temos consciência de que o tempo irá passar, que as transformações virão e que, de forma muito rápida, tudo o que conhecemos deixará de existir.

Início da icônica década de 80, eu ainda não frequentava o Leblon como viria a fazer poucos anos depois, nas noites estroboscópicas da Boate Circus, das bebedeiras do Baixo, no deslumbre que me envolvia quando eu descia da linha de ônibus de número 415. Certa noite, lembro-me de descer no ponto final do 415 e dar de cara com a Vera Fisher, uma mulher alta, em toda a sua exuberância nórdica, entrando em uma loja da Kopenhagen da Av. Ataulfo de Paiva.

Foi neste Leblon do Real Astória, das noites frenéticas do Cazuza, das celebridades anteriores às Redes Sociais, que pisei num fim de tarde ameno para um encontro marcado com uma menina que conheci através de uma linha cruzada no telefone (no período em que existiam linhas cruzadas), o nome dela era Mônica. Sem carro, tijucano, perto completar dezoito anos, peguei o metrô, desci em Botafogo e fiz a baldeação por um sistema chamado “metrô-ônibus”. Desembarquei na Praça Antero de Quental em um desses dias de outono. A luz dourada de um sol reinando em céu límpido, azul e atemporal refletia todas as cores do universo com uma intensidade que se tatuou na minha memória. O aroma do mar, o coração nobre da Zona Sul carioca, tudo me encantava naquele momento.

Pelo orelhão (quando os orelhões eram os celulares), confirmei minha chegada. Havíamos combinado no calçadão da Delfim Moreira e nunca me foi possível esquecer a visão daquela tarde. Tudo tinha um brilho incandescente, creio que foi a primeira vez que vi o Hotel Marina (que se eternizaria na voz da cantora Marina em 87), tudo transpirava magia, por mais que magia seja uma palavra clichê, é a única palavra que encontro para descrever as emoções flamejantes que me invadiram quando me plantei diante do mar do Leblon. O encontro seria na parte da praia em frente à rua General Urquiza, sentei-me em um daqueles bancos de concreto e aguardei. Sem celular, WhatsApp, só me restava esperar, corroído pela expectativa.

Mônica me disse com que roupa viria, eu dei uma descrição falsa de mim mesmo. Ela me avisou que estaria com uma amiga. Naqueles minutos de espera, olhando para o mar, para o morro Dois Irmãos, sentindo o calor morno e aconchegante do outono, me senti em um raro momento de paz, desses em que a mente desacelera, quase para. Olhando para trás e escrevendo aqui, percebo que sempre fui muito solitário, a solidão foi uma face vocacional da minha existência, desde adolescente, um estágio para me tornar o libertino que sou hoje. Neste instante em que escrevo, me invadiu a saudade da infância, quando meu pai me levava às sessões do Metro-Tijuca para assistir a matinê Tom e Jerry, a mente daquele que envelhece é um caos pairando no limbo cósmico.

Quase em transe, despertei quando vi duas meninas atravessando a pista, uma conferia com a descrição que a Mônica me ofereceu como referência. Sim, era ela, uma loira de olhos verdes, cabelos compridos, escorridos. À medida que se aproximava, assemelhava-se muito à Bruna Lombardi. Não era a Bruna Lombardi, mas quase uma cópia. Ao seu lado, uma morena com tipo de índia, gordinha, de negros cabelos lisos e compridos. Estremeci e apressei-me para me camuflar em um quiosque.

Inseguro com a minha aparência, não tive coragem para me aproximar, para me apresentar. Fiquei ali, atrás do quiosque, exilado, extasiado, observando aquele sonho de qualquer adolescente caminhar pelo calçadão a minha procura. Vim criança para o Rio de Janeiro, mas acredito que a minha alma de interior gaúcho ficou entranhada nos meus hábitos, eu estava com a roupa mais destoante que poderia ter escolhido: calça comprida, blusa social e casaco por cima, em pleno calçadão luminoso do Leblon. Waldick Soriano aparentaria ser menos cafona se estivesse ao meu lado. Um nerd ridículo imaginando que a vida poderia ser um açucarado filme hollywoodiano, um nerd tijucano acreditando que nerds namoram loiras de olhos verdes do Leblon.

Quando desistiram de me procurar, me lancei em uma caminhada destemida no sentido oposto ao que elas vinham, apostei que não iriam me reconhecer. Fomos nos aproximando e quando nos cruzamos o meu coração deu saltos acrobáticos dentro do peito, o ar me faltou. A garota era linda, lindíssima. Todos os meus sonhos românticos de adolescente se materializaram ali, naqueles cabelos loiros, naqueles olhos verdes, no mar do Leblon, no letreiro do Hotel Marina, no suspiro irrefreável que subiu dos meus pulmões. Como tantos sonhos que cultivei na vida, esse também passou por mim sem que eu esticasse as mãos, o medo da rejeição foi maior do que a coragem de agarrá-lo. Mônica passou como quem confirmasse a minha invisibilidade. Eu a segui por um trecho do seu percurso e parei para vê-las desaparecer entre prédios e esquinas.

Encostei no balcão de outro quiosque, pedi uma água de coco, fiquei contemplando o distante horizonte do oceano, perdido naquele vazio infinito enquanto o sol ia se pondo como um rei que não se importa em abandonar o trono. O crepúsculo trouxe as estrelas. As luzes da noite e o lampejo falso das fachadas em neon me deram boas-vindas. De algum ponto não muito longe, a voz de Ritchie entoava “Menina Veneno”. Nada aconteceu e tudo aconteceu naquela tarde de outono.