– …O Amor é calmaria que sucede a tempestade da Paixão, é o tédio inevitável.

De antemão, perdoo-lhe o ceticismo, mas quem emitiu essa frase tão elaborada foi uma antiga rameira, veterana da Vila Mimosa, nos tempos em que esse meretrício ficava no Estácio, próximo ao que hoje é a estação do metrô.

Dona Gioconda, assim ela ficou conhecida na Vila, uma prostituta que devia navegar pelos sessenta anos e continuava na ativa. Diziam que ela não fazia mais programas, que havia alcançado a fama com o apelido que recebeu dos intelectuais de prostíbulo: o oráculo da zona.

Seu talento como psicanalista de bordel espalhava-se, de boca em boca, entre os neuróticos e amantes desiludidos da Grande Tijuca, encontraram nela uma terapia alternativa para os destemperos da vida. Contava-se que os clientes a procuravam somente para desabafar e ouvir conselhos.

Dona Gioconda ganhou vulto de conselheira sentimental para homens, seu consultório funcionava numa baia dentro da própria Mimosa. Registra a lenda que ela tinha formação superior em psicologia, mas preferiu continuar ali, naquele covil do sexo, o grande celeiro de perturbados, seu manicômio particular.

Eu ainda não poderia imaginar que, ao descer em carreira desgovernada por uma ruela do morro do Tuiuti, estaria iniciando o meu caminho até essa senhora.

O episódio começa num sábado à noite, dia em que eu me esgueirava pelos Forrós do Rio, cumprindo a sina de predador sexual.

Poucos conseguiriam superar o estilo brega que eu, um carioca, criei na minha fase de forrozeiro. Eu vestia meu uniforme de caça: o tom era sempre escuro (preto ou cinza, a camuflagem da noite), camisa social fechada até o último botão da gola, calça de linho, sapatos brilhando na graxa e um blazer para completar o visual. Fico quente só de lembrar. Às vezes, aparecia alguém para me perguntar se eu era pastor.

Os forrós do Rio, no meu tempo, não tinham ar-condicionado e, com essa indumentária, no verão, eu virava uma massa liquida, empapado de suor, circulando pelo salão sob a trilha sonora do triângulo e da sanfona.

Eu estava abraçado com a cerveja e esperando o Teixeirinha, que nunca era certeza de aparecer. No nosso último contato, ele avisou que iria negociar a compra de uma coleção de discos do Cauby Peixoto com um camelô de Copacabana.

O Teixeirinha é um conservador, sua filosofia consiste em crer que só as antiguidades possuem virtudes. Tem repulsa ao moderno, seu carro é um Corcel dourado antiquíssimo e seus discos são os velhos longplays. Trata com aversão os CDs, só ouve vinil ou fita cassete.

Beijava a terceira garrafa de cerva quando percebi uma fêmea quase ao meu lado. Meu fetiche por mulheres altas e esguias ativou todos os alarmes. Uma morena de cabelos cacheados que desabavam pelas costas, calça justíssima delineando suas ondas perfeitas e um sorriso largo à Julia Roberts. Apelei para a falta de criatividade e pratiquei o uso da lábia cretina.

– Oi, eu juro que não é cantada, mas eu tenho certeza de que conheço você, estou aqui tentando lembrar… A gente não se conhece?

– Não sei, quase não venho ao Rio, sou de Cabo Frio.

– Hum… Qual seu nome?      

– Suzana.       

– Toma uma cerveja comigo, Suzana?         

– Pode ser.     

A receptividade foi total. Essa era a vantagem dos forrós, não havia mulher impossível.

O período da conversa durou por umas quatro garrafas de cerveja e alguns segundos do Martini que ela pediu para arrematar. Suzana era boa de copo. Ela me disse que precisava ir embora e perguntei qual seria o seu destino.

– São Cristóvão, na São Luiz Gonzaga, quase chegando em Benfica, Largo do Pedregulho.

– Posso levar você? Não estou de carro, mas vamos de táxi, moro perto.

– Ah! Não é preciso, eu volto com uma amiga, de ônibus.

– Que isso! Vou com você. Está muito tarde e é perigoso andar de ônibus.

– Tudo bem! Vou falar com a minha amiga e já volto.

Regressou sem a amiga, que estava encarrapitada a um cearense e não pretendia deixá-lo. Saímos nós dois.

Chegamos à rua e vejo o meu herói, o Teixeirinha, enlaçado a uma garrafa de batida e recostado no seu Corcel salvador. Era a minha carona! Levamos Suzana até São Cristóvão e conquistei a recompensa de alguns beijos que devoraram parte do meu coração.

Entrei em casa apaixonado, passei toda a semana seguinte pensando em Suzana, tentei encontrá-la no telefone que havia me deixado, era um número para recados, mas ela nunca me retornava. Fiquei obcecado.

Na noite de sexta-feira, insisti com o Teixeirinha para que ele me levasse a São Cristóvão, onde a menina falou que morava. Eu ia tentar a sorte.

Confesso que tive uma impressão sombria do Largo do Pedregulho, a única referência deixada por Suzana para que eu pudesse tentar localizá-la.

Estacionamos em frente a uma barraca de cachorro-quente, constatei que seria quase impossível rever minha musa. Foi quando o milagre aconteceu e o Teixeirinha, numa intervenção divina, interrogou a dona de um carrinho de hot-dog.

– A senhora conhece uma garota chamada Suzana, ela mora por aqui? É alta, magra, cabelos cacheados…

– Suzana? Conheço sim! Ela mora do outro lado, tem que subir aquela entradinha ali.

A entradinha era um acesso ao morro do Tuiuti. É engraçado como nomes inocentes tomam a dimensão de uma placa com o aviso de “afaste-se”. No geral, alguns nomes de morros sempre me pareceram ter um som atemorizante: Borel, Juramento, Chapéu Mangueira, Complexo do Alemão, Urubu, Jacarezinho etc. Quem batizou esses lugares?

Sob os protestos do Teixeirinha, decidi subir. A moça do cachorro-quente indicou que era o primeiro sobrado rosa do caminho, que não tinha perigo. Confiei!

Toquei uma campainha e ouvi uma voz feminina vindo de cima, de um terraço.  

– Quem é?      

– Eu estou procurando a Suzana.

– Quem quer falar com ela?

– Um amigo.

– Mas a Suzana daqui é a mulher do Lobão! É com ela mesmo que deseja falar?

– Huumm, Ahmm, Huumm… Acho que estou no endereço errado. Desculpe! – gelei e fui tomado pela súbita consciência de que estava, literalmente, na toca do lobo.

Em seguida, passa ventando por mim, numa correria ruidosa, uma fila de homens com cara de poucos amigos. Desciam a ladeira numa marcha tribal e assustadora. Não me viram. Decidi segui-los no mesmo ritmo, como se fosse um deles.

Desemboquei no Largo do Pedregulho novamente, suava frio.

– Teixeirinha, liga o caro. Vamos vazar daqui, vamos vazar!

O susto havia me devolvido a razão, não queria mais saber daquela história. Eu havia descoberto que vivia num mundo onde ovelhas se casavam com lobos.

– Cara, sai dessa depressão! – dizia o Teixeirinha tentando me consolar durante o percurso para Tijuca – vou te levar pra falar com uma pessoa que me ajudou na época que briguei com a Carla (namorada do Teixeirinha).

– Pô, amigo! Não quero falar com ninguém sobre isso. Passou! Vamos embora!

Quando vi, estávamos parando o carro perto da Vila Mimosa.

– Teixeirinha, vai pegar mulher aqui?

– Você vai conhecer uma amiga minha.

– Que amiga?! E, por acaso, você tem amiga na Zona?

– Nunca lhe contei, mas tem uma mulher aqui que é um espanto. Dona Gioconda! Conversa com ela, você vai gostar de conhecer.

A casa era logo no início da Vila. O Teixeirinha anunciou no balcão do bar que desejava uma consulta. Dona Gioconda estava ocupada, teríamos que esperar.

Nossa vez! O Teixeirinha me mostrou o caminho. A baia da Dona Gioconda era algo semelhante a uma loja de produtos esotéricos. O cheiro de incenso dominava a atmosfera. Havia uma cama de solteiro repleta de almofadas e com uma poltrona ao lado. Budas, Gnomos, crucifixos, imagens de São Jorge e da Nossa Senhora de Aparecida espalhavam-se por todos os cantos.

Dona Gioconda era uma mulata cinquentona, gordinha, entalada num espartilho preto, os cabelos num corte Chanel e pintados de um loiro platinado que davam um toque futurista a sua imagem.

– É a primeira vez comigo, meu filho?

– É sim.          

– Sabe que aqui a cama é para a conversa, não é, meu filho?         

– Sei, me disseram – o Teixeirinha havia me adiantado o esquema.

– Deita, meu filho – deitei e ela recostou-se ao meu lado, me fazendo cafuné – o que está incomodando o seu coração, menino?

Dona Gioconda tinha uma voz rouca e maternal, fazia você ter vontade de se abrir.

– Está tudo dando errado, Dona Gioconda. Nada dá certo. Não consigo firmar com nenhuma mulher.

Dona Gioconda então se levantou e ligou um toca-fitas, um som de batuque invadiu o ambiente.

– Vou chamar o “Dr. Fróidi” pra conversar com você, moço. Relaxa que vou chamar o Dr. – e o som do batuque que exalava do toca-fitas ficava cada vez mais frenético.

Imaginei que ela fosse chamar outra pessoa para entrar no quarto, mas não era isso.

Dona Gioconda realizava um ritual em que acreditava ser possuída por Freud. Isso mesmo! Ela baixava Sigmund Freud!  Sentava na poltrona ao lado da cama, fechava os olhos, balançava o corpo no ritmo da batucada e ele descia: o “Dr. Fróidi”.

– A Gioconda me disse que seus relacionamentos são sempre fracassados. Por que você acha que isso acontece? – o Dr. havia chegado, a voz de Dona Gioconda era outra, tinha sotaque e tudo.

– Não sei, acho que sou inseguro – respondi com voz trêmula.

– Você não deve declarar guerra aos seus complexos, rapaz! Deve entrar em acordo com eles – eu estava sendo analisado por Freud dentro da Zona. Era o apocalipse!

– Eu só quero encontrar uma mulher que aconteça, Dr.! Uma mulher pra amar, formar família… – Entrei no clima.

– Somos feitos de carne, meu jovem, mas temos que viver como se fôssemos de ferro. Para que amar? Viva suas paixões, elas são a vida. O amor é calmaria que sucede a tempestade da paixão, é o tédio inevitável.

A mulata sacudiu o corpo, soltou um suspiro longo e estava de volta. O “Dr. Fróidi” se foi.

– Falou com o Dr., meu filho? Ele ajudou? 

– Falei! Ajudou! Obrigado!  

– Vá em paz, meu menino.

O velho Shakespeare tem razão: “há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia.”

Dona Gioconda era dublê de Freud.

Fiquei grato ao Teixeirinha por me proporcionar tal visita. Foi a loucura que me trouxe equilíbrio às ideias.

Segui minhas paixões sem nunca mais esquecer daquela enfática lição: o amor é o tédio inevitável…