Aroldo não era vaidoso com a aparência, nem com as roupas, ou qualquer outro tipo de luxo. Ia se aproximando dos quarenta anos e permanecia morando com os pais, não possuía sequer um automóvel que lhe facilitasse a locomoção. Sua única vaidade era se pensar o centro das atenções, gostava de cultivar a personalidade megalômana, sua ilusão pessoal.

Tinha um trabalho mediano, que lhe garantia uma renda modesta, mas suficiente para suas ambições.

Seu lazer era somente um, gostava de frequentar os bordéis que proliferavam pela cidade. Havia os preferidos, mas não se recusava a conhecer novos recantos libidinosos. Com o tempo, sem que ele percebesse, sua diversão transformou-se em rotina, saía da labuta diária para um segundo expediente nas casas de tolerância.

Orgulhava-se por supor que era conhecido entre as meretrizes, imaginava que elas o idolatravam. Tentava ser generoso, dentro dos seus limites financeiros, pagava bebidas, oferecia mimos etc. As prostitutas, por sua vez, quando não o julgavam uma nulidade, o asseveravam como um inconveniente e fracassado. Mas os ouvidos de Aroldo só captavam o que lhe servisse de fertilizante para o ego.

Ainda jovem, deu-se a perambular pelos lupanares do Centro e da Zona Sul do Rio. Envaidecia-se por ser próximo de alguns rufiões, com os quais sempre buscava estreitar amizade.

Glorioso, exibia a agenda do seu celular para qualquer um que se interessasse em ver, farta em nomes e fotos de cafetões e mulheres fáceis, era o seu troféu.

Aroldo tinha formação superior, porém não era dotado de grande cultura. Buscava sanar essa lacuna praticando a simpatia de fanfarrão. Fez amigos pelos prostíbulos, alguns pareciam replicantes dele próprio.

Não esquecia o conselho do velho Estéfano: nunca olhar para trás…

Por onde andaria o velho Estéfano? Nunca mais o vira. Alguns nem lembravam mais dele, uns poucos afirmavam que o nome parecia familiar, outros respondiam que havia morrido.

Para ele, Estéfano era um guru. Declamava, solene, a célebre frase do velho mestre:

– Se vai viver para os instintos, jamais olhe para trás…

– Genial! – murmurava Aroldo todas as vezes que a citava.

Certo dia, cruzando com um espelho, percebeu que seu aspecto mudara muito desde a juventude. Havia engordado, o corpo adquiriu uma forma ovalada e a cabeça assemelhava-se a uma esfera minúscula e desproporcional pendendo sobre um imenso globo. Não se reconheceu… Chocou-se! Os anos haviam passado e sua imagem era a visão de um estranho.

O sexo não mais lhe proporcionava nenhum tipo de alívio, há tempos que passara a ser um ato mecânico, desprovido de quase nenhuma emoção. Era a interminável reprodução de um hábito monótono.      

 O fenômeno ocorreu numa dessas noites em que se preparava para deixar o seu bordel predileto, na Rua Buenos Aires. O ritual era o de sempre: tomava uma sauna, seguia para a ducha, vestia-se, ajeitava rapidamente os cabelos, deixava uma gorjeta para a arrumadeira, pagava a conta e ganhava a rua.

Saiu caminhando em direção à Primeiro de Março, onde tencionava pegar um táxi. No meio do percurso ouviu ao longe a melodia que o remeteu para os dias da adolescência, uma época de entusiasmo, de projetos, de grandes amores… A nostalgia daquilo que estava irremediavelmente extraviado o tomou desprevenido. Como num reflexo, ele olhou para trás…

Tudo aconteceu em segundos, a mancha negra cresceu diante dele e começou a envolvê-lo; tentou mover o pescoço para frente, mas os seus músculos retesaram-se, o corpo fincou-se como estátua de concreto; quis gritar e a garganta estrangulou sua voz; num piscar de olhos, Aroldo foi sugado pelo próprio vácuo. Desapareceu!

Após alguns anos, os pais ainda não haviam dado pela sua ausência; alguns amigos não lembravam dele; outros diziam que o nome parecia familiar; havia os que apenas respondiam, sem atenção, que era falecido. O mais grave vinha dos que garantiam que o tal Aroldo, na verdade, nunca existiu.