Acredite, forista sem fé, já fiz sexo com quase tudo que anda e rasteja sobre a terra, nos mais diversos recantos e guetos onde fosse possível saciar a interminável fome de carne humana, não há exagero nessa declaração. Hoje sou um cowboy velho, não desses falsos valentões que atiram pelas costas, mas uma espécie de Gregory Peck no filme “Da Terra Nascem os Homens” (The Big Country) — se não assistiu, procure assistir. Posso dizer que eu e o meu Sucatão entramos nas sombras em que homens comuns jamais estiveram. Sempre penso que vi de tudo, mas como diz a sabedoria popular: o jogo só acaba quando termina.

MISSÃO

Entrei no carro, acionei o motor e deslizei sobre o negrume frio do asfalto noturno. As luzes pálidas dos postes fumegavam amarelas, refletidas nas poças de água da chuva fina que assolava o Rio. Girei por ruas e esquinas da cidade entorpecida até determinar um rumo para seguir, decidi rodar por Copacabana, ver o que sobrou do antigo frenesi de um bairro que foi chamado no passado de a cidadela do pecado. Acelerei, o Sucatão roncou como se convocasse os demônios escondidos sob as trevas dos esgotos, avançamos determinados em direção à Princesinha do Mar.

Apesar da chuva e de ser um dia do meio da semana, havia algum movimento de pedestres na madrugada de um bairro que ainda tenta não dormir. Botecos abertos e as luzes de neon fantasiando uma terra colorida que ilude os gringos incautos. Entrei pela av. Prado Júnior e peguei a av. Atlântida em direção ao Leme, eu quis fazer o retorno e percorrer toda a orla de Copacabana. Pouco depois da Praça do Lido, avistei um grupo de meninas. Você poderia perguntar, incrédulo forista: seriam realmente meninas? Sim, eram meninas. Uma delas encaixada em uma minissaia branca que arrematava a sensualidade de uma camiseta escandalosamente decotada. Loira, sarada, cabelos lisos na altura dos ombros. Fiquei vidrado. Segui e fiz o retorno para passar outra vez em frente àquela visão dourada. Diminuí a velocidade, lancei a direção para beirar o acostamento e parei em frente a garota. Ela se aproximou da janela do carona, em uma coreografia já esperada, e me olhou com uns olhos verdes capazes de incinerar qualquer desilusão.

— Boa noite — eu disse — como faço para ficar com você? — a pergunta é cretina, mas a noite exige, invariavelmente, que sejamos cretinos.

— Boa noite, meu bem. São x reais o boquete e y com tudo.

— E para onde podemos ir? — continuei.

— Aí depende do que você quer, amor.

— Quero tudo.

— Então podemos ir para onde você quiser.

— Entra — liberei a porta do carro para a loira.

Ela entra, se acomoda e me dá um selinho.

— O pagamento é adiantado, tá amor?

Detesto meninas que pedem dinheiro antes da foda, mas compreendi a situação e paguei.

— Qual seu nome? — perguntei.

— Carla e o seu?

— Dante. Meu nome é Dante.

LICENÇA PARA MATAR

Quem nunca perguntou a uma garota de programa se ela faz oral sem camisinha? Se ela beija na boca?

— Depende da higiene, querido — responde a querida.

Existe resposta mais brochante do que essa? Geralmente, quando a menina me responde isso, eu bloqueio no zap ou cuspo no anúncio. De que adianta dar uma resposta desse tipo? O cliente anti-higiênico nunca se acha anti-higiênico, na verdade ele ignora noções de higiene, por isso vai se achar sempre em perfeito estado de limpeza, mesmo que cheire a cocô de gambá. Lembro-me de um rapaz baixinho e magricelo, antigo nos fóruns, que alguns apelidaram de “anão de sinagoga” (não me perguntem o porquê), certa vez ele foi rejeitado por uma acompanhante por se recusar a tomar banho antes do programa, era noite e o “anão” alegava que já havia se banhado pela manhã e que sua cueca era feita de um tecido especial que absorvia o suor da região da virilha. Ou seja, um porco, mas os porcos se acham limpos e inventam até dispositivos de limpeza automática que dispensam o banho.

— Caro Dante, por que essa introdução? — perguntaria o forista que esqueceu de tomar a dose de ansiolítico.

Este prefácio é apenas para ensinar às mulheres que sentenciam que “depende da higiene” é inútil, vai afastar os limpos e atrair os porcos. Infelizmente, foi essa a resposta que Carla me deu dentro do carro, quando perguntei sobre beijo na boca e boquete sem camisinha. A minha vontade foi ejetar o banco de carona com a puta sentada nele, lançá-la ao espaço sideral, onde talvez encontrasse o Jeff Bezos fazendo outro carnaval estelar com sua Blue Origin. Contive-me.

— Para onde vamos, meu bem? — esse negócio de “meu bem” me afeta nos nervos.

— Você não disse que eu poderia ir para onde quisesse? — respondi.

— Eu disse, mas quero saber para onde vamos.

Pensei por alguns segundos e me decidi sobre o local, decisões apressadas são sempre as piores.

— Estou indo para um motel na Glória.

— Na Glória?!

— Sim. Não era para ser onde eu quisesse?

— Ai, mas a Glória é longe, meu bem.

— Relaxa. Agora já estamos perto.

Dirigi em direção ao Motel Alameda, na rua Cândido Mendes, no coração da Glória, um matadouro que conheço desde o início dos anos 90. Fui para lá movido por uma inesperada nostalgia. No meio do caminho, na Praia do Flamengo, uma blitz se agigantou diante do meu Sucatão, fizeram sinal para que eu parasse. Pela primeira vez vivi uma cena de filme americano, um PM gordo, munido de uma lanterninha potente, jogou a luz na minha cara e perguntou para onde eu estava indo. E o direito de ir e vir? — pensei. A garota ao meu lado não permitiu nem se quer que eu respirasse, respondeu antes de mim.

— Para um motel na Glória.

O PM gordo olhou para a garota, mirou nas coxas roliças, depois olhou para mim, mirou na minha barriga imoral, nos meus cabelos grisalhos e praticamente retrucou com a expressão dos olhos: “e quem vai te comer no motel, gostosa? Esse velho com pinta de brocha?”

Como tudo o que foi dito, foi dito apenas com olhares, o silêncio imperou durante o duelo visual até o obeso de farda nos liberar.

— Pode ir.

Foi a primeira vez que precisei de permissão para comer uma puta. Seguimos nosso rumo. Pedi um quarto comum do Alameda, que possui acomodações pequenas, mas funcionais para quem quer dar uma rapidinha. Peguei a chave e fomos para a alcova. Entrei para o banho enquanto Carla sintonizava um funk de favela no celular, nada contra, mas para o sexo não é algo que me sugere combinar muito. Saio do banho e vejo a menina nua, rebolando a raba ao som de um videoclipe da Anitta.

— Vem dançar, meu coroa — Carla me chama puxando a minha toalha e revelando todos os meus impudores.

Dei uma reboladinha para acabar logo com aquilo e iniciar o que me interessava. A menina tem um corpo bonito. Seios pequenos em forma de peras; coxas grossas, aparentemente torneadas em academia; barriga zero; bunda redondíssima e arrebitada; a idade deve girar entre 25 e 28 anos. Comecei com os beijos, nessa altura tocava outra melodia esquisita no celular, Carla me informou ser do MC Sapão.

Entrei no ritmo. A mulher beijava gostoso, chupar seus peitos estava uma delícia. De repente, ela ergue o corpo e monta sobre o meu tronco, começa a esfregar a boceta perigosamente no meu pequeno e enrugado pênis, mais um pouco e eu teria ejaculação precoce. Ela anunciou que ia me fazer um boquete. Afeiçoado forista, que boquete! Talvez eu nunca tenha sentido sensação parecida, não sei qual a técnica que a puta usou, mas o fato é que devo ter gozado tudo e mais um pouco em trinta segundos do início da sucção. Impressionante.

Carla se levantou e começou a se vestir, entendi o recado e fiz o mesmo. Paguei a conta do motel. Entramos no Sucatão e inseri um pendrive com músicas selecionadas no aparelho de som, giro a chave e ganhamos os mistérios silenciosos do asfalto. A música começa a vazar pelas caixas. Carla solta a sua última pérola…

— Caralho! Que música de velho.

Cai o pano.