Ninguém sabe exatamente em que ponto da estrada pegou o desvio que fez descer ladeira abaixo. A decadência não é uma opção voluntária, é um desencontro íntimo, profundo e nebuloso. Decair é enredar-se num casulo.

Não me recordo qual o motivo que me fez desviar o carro do caminho de casa àquela noite para conhecer o ponto de prostituição mais famoso do Rio. O tédio, a curiosidade, a luxúria… Qualquer uma dessas razões explicaria o meu impulso ou, provavelmente, todas elas.

A Vila Mimosa, Zona do baixo meretrício carioca, sempre foi para mim uma lenda urbana, um lugar sobre o qual eu ouvia histórias temerárias, que me traziam imagens de mulheres libertinas andando seminuas a céu aberto; terra de rufiões violentos, de assassinatos, de traficantes e viciados. Tudo isso numa região próxima ao Centro da cidade. Ao passar pela Praça da Bandeira, era difícil conseguir imaginar uma rua tão exótica, encravada entre ramais de trens, pairando num universo paralelo que beira a imperial São Cristóvão.

Atravessa-se um portal acidental criado pela linha de trilhos que faz ponte sobre o asfalto e desemboca-se na Rua Ceará. Por cima dessa pequena fenda ferroviária, desenha-se o arco que faz a entrada da Zona. Não seria surpresa encontrar ali a frase que Dante Alighieri leu sobre o umbral do Inferno: “Deixai toda a esperança, ó vós que entrais”.

À noite, a visão é de penumbras e fantasmas de sombras que nos prepararam para imergir numa outra dimensão. Estaciono o carro, desço e piso sobre os paralelepípedos da Vila Mimosa. Um silêncio melancólico reinava junto com a luz tímida e pálida que escorria por alguns trechos das paredes e desmaiava mórbida sobre o chão de pedras. Continuo andando e avisto um sobrado de aparência precária, soturna, onde pende um letreiro: “Hotel Canário”. Dobro numa outra via, à direita, e começo a avistar uma festa de brilhos coloridos ao longe, brilhos embaçados por uma névoa tênue que ascendia das calçadas.

À medida que mergulho no burburinho festivo, percebo que a onda de fumaça nascia de uma infinidade de churrasqueiras espalhadas por diversos cantos das sarjetas. O barulho também se tornava mais ensurdecedor a cada passo para dentro do olho do furacão; caixas de som gritavam numa sinfonia descompassada, caótica e sufocante. Desbravo um breve vale de casas quase em ruínas e a primeira associação que faço da visão que se descortinava diante dos meus olhos é de uma paisagem de pós-guerra. Eu me sentia caminhando sobre destroços de uma batalha, um cenário do Armagedom.

Tudo refletia o caos! Os rostos, as vozes, os cheiros… A sujeira encobria o trânsito dos ratos; as lâmpadas fortes revelavam faces moldadas em vácuo; homens armados perambulavam sem recato, como se estivessem num faroeste caboclo; prostitutas, com pouca ou nenhuma roupa, iam de um ponto ao outro, sem rumo; os demônios ocultavam-se na meia-luz dos cubículos onde se consumava o sexo remunerado. Descobri que o Inferno não é uma abstração, ele existe, é real. Lúcifer é o amálgama de homens e mulheres que foram levados a desistir da dignidade. A Zona é a maquete do Inferno.

Na metade da rua, avistei três galerias que se abriam entre os casebres, adentrei por uma delas. As prostitutas me observavam curiosas, como se reconhecessem um elemento estranho dentro das veias da Zona. Meus olhos as vislumbravam com o fascínio de quem testemunha mitos se desintegrarem no choque com a realidade.

Eu transpirava excitação, o clima underground havia me seduzido. Minha presença chamava a atenção, meu tipo não devia ser comum naquele ambiente. Estar na Zona me fazia compreender o quanto ela era inimaginável para quem ouvia suas definições abstratas. Torná-la concreta, conhecê-la, nos contamina com uma verdade desnuda e tão pura que é quase insuportável. Olhar dentro da Zona é correr o risco de emancipar os segredos que trazemos acorrentados em nossos porões.

No final de uma das galerias, percebi uma negra bonita me fitando com uma intensidade maior do que todas as outras mulheres com as quais cruzei. Foi ela quem me despertou a atração que me fez ancorar e desejar sua aproximação. E ela veio… Não trocamos muitas palavras, ela apenas disse que me queria. Eu, refém de um magnetismo quase hipnótico, assenti com a cabeça e me deixei conduzir. Subimos uma estreita escada em forma de caracol e nos trancamos num minúsculo quarto, uma cela escura onde havia tão-somente uma cama de solteiro forrada por um lençol surrado.

A negra, afoita, beijava minha boca enquanto me despia. Eu suava de tesão, meu corpo incendiava-se pela própria libido. Ela se desfez dos parcos panos que cobriam suas partes mais íntimas e colou seu tronco junto ao meu, ambos nus. Um prazer que nunca conheci quase me fazia privava da razão. Ela começa a me lamber no ventre e deslizar em direção ao meu sexo. Invadiu-me a vontade de gemer, de gritar, meu corpo se contorcia em espasmos incontroláveis. Nunca experimentei um orgasmo tão violento, tudo em mim silenciou, emudeci.

Antes de nos despedirmos, ela acariciou meus cabelos, mostrou-se deslumbrada pelo tom louro que escorria pelas suas mãos de ébano. Nossa linguagem quase que se limitou a olhares e suspiros. Revelei-me através de toques e ela me aceitou através de beijos. Palavras foram pouco necessárias, o amor se consuma pela intuição.

Eu precisava partir, pois o tempo fazia daquela prisão uma ilusão de deleites. Sem que eu pedisse, ela me revela seu nome: Lara.

Em seguida, pergunta-me como deveria me chamar. Naquele instante, se desfez o impasse que carreguei por toda a minha vida. Ao dizer meu nome, eu confessava uma condição que asfixiei com o preconceito, me libertava.

– Meu nome é Ariadne – finalmente a flor da minha essência desabrochava sem o receio da autodiscriminação.

Lara toca os meus seios com lábios delicados, eu me visto e a deixo.

Aos poucos, me afasto daquele caldeirão de vícios, depravações e decomposição existencial. Com um sapato de salto alto nos pés, tentava manter equilíbrio sobre os paralelepípedos que formam as ruas da Vila Mimosa. Talvez, alma seja a denominação que damos para esta capacidade peculiar de nos equilibrarmos sobre as pequenas ilhas de pedra que flutuam entre abismos. Embrenhar-se pelo portal do Inferno faz o espírito conhecer uma das metades do existir, encontrar a porta de saída é o que nos torna humanos.

Minha avó foi quem me batizou e costumava contar que a missão de Teseu era aniquilar o Minotauro, mas que sua alma residia naquele novelo de lã que o resgatou do labirinto. Paro de filosofices, entro no carro e acelero em direção à luz…