Chovia. O Natal, data que sempre gostei, não foi bom. Foi um Natal sem luzes coloridas, com meu pai internado fazia uma semana. A última notícia que tínhamos informou que ele havia sido intubado. Eu estava pessimista, como se esperasse a pior notícia, e a notícia veio no dia 26 de dezembro de 2020. O telefone tocou tarde da noite, lá fora o barulho do vento e dos respingos do temporal batendo contra a janela. A voz da médica que acompanhava o meu velho me pede para que eu leve os documentos dele. A dedução foi óbvia: meu pai faleceu.

Tudo tinha o tom de um filme de terror. Saí de casa afobado, peguei um táxi e logo estava em uma rua sombria e triste de Botafogo para confirmar o que eu já sabia. Quando recebemos o anúncio da morte de alguém que amamos, somos poupados por um tipo de anestesia mental que o impacto da situação nos causa. Foi assim que fiquei, repentinamente anestesiado, pragmático. Reconheci o corpo estacionado sob a penumbra de uma sala pequena e voltei imediatamente para a recepção do hospital determinado a resolver a questão do funeral. Agora, escrevendo aqui, me recordando do dia macabro, volto a sentir a solidão esmagadora que se apossou de mim naquela noite, solidão que se estendeu por muitas semanas, com um peso que eu nunca tinha experimentado.

A morte de um ente querido e fundamental em nossas vidas deveria ser motivo para que pudéssemos nos recolher em paz e esperar o pior da dor se dissipar, mas não é assim. Eu tinha a consciência de que seria necessário desembolar uma série de questões burocráticas que a morte de alguém próximo da família gera para quem fica. Sozinho, queria conversar com alguém que pudesse me amparar, mas não havia ninguém. A cremação foi marcada para dois dias depois, com o mundo ainda assustado pela pressão da pandemia. Somente eu, meu irmão e uma vizinha estivemos presentes ao velório. Eu me sentei diante do corpo imóvel do meu pai, olhava para o seu semblante estático tentando decifrar seus últimos pensamentos, suas últimas preocupações. Lembro-me de que, alguns dias antes, ao visitá-lo na UTI, ele me disse que esperava sair logo da internação, não queria decepcionar a festa de Natal que minha mãe havia preparado, estava bem, lúcido. Não voltaria para casa, não nos falaríamos mais.

No silêncio do velório, diante do seu corpo morto, dialogávamos pela última vez. De repente, explodi em uma convulsão de lágrimas. Eu não teria mais meu pai, não mais conversaríamos, não mais riria de suas brincadeiras e piadas. Nada. Nada. Eu boiava no meio de um vácuo, sozinho, percebendo finalmente que a vida é feita também de ausências definitivas capazes de erodir a nossa alma como um rio irrefreável. Como desejei que encontrar alguém que pudesse me ouvir e me amparar, alguém de fora, distante da dor que eu vivia, mas capaz de me compreender, de me oferecer a mão. Ninguém, ninguém. Estávamos eu, o silêncio, a solidão e o corpo extinto do meu pai. Nunca experimentei vazio semelhante e sei que ainda posso voltar a experimentá-lo, só não sei se serei capaz de suportá-lo outra vez.

Passei os dias que se seguiram em uma depressão abissal. Por contas das idas e vindas ao hospital, fui contaminado pela covid. Demorei a me recuperar e o meu estado emocional se agravou ainda mais. Eu estava no inferno, porque o inferno deve ser algo semelhante ao absoluto desalento em que me vi habitando. Passaram-se os dias e em um fim de tarde decidi marcar com uma mulher da Tijuca que faz massagem com complemento sexual, não quis marcar pelo desejo de sexo, mas pela minha necessidade de contato humano, do jeito que fosse. Dias antes, procurei uma psicóloga e foi um contato horrível, a mulher me ouviu, pouco disse e no fim perguntou quanto havíamos combinado para o pagamento da sessão. A sensação é de que me ouviu de má vontade durante os trinta minutos que estive em seu consultório. Saí da consulta mais desamparado do que entrei, escolhi uma psicóloga sem sensibilidade para o luto.

Alice era o nome da “terapeuta” sexual, me recebeu bem, foi carinhosa, me ouviu, me tocou, me beijou e me levou ao orgasmo. Alguns podem alegar que eu deveria sentir vergonha de procurar sexo durante o luto, mas poucos terão alcance para compreender o desespero existencial que o luto me causou. Não saí do encontro com dor na consciência, saí um pouco menos pesado. A morte do meu pai extirpou-me a esperança de continuar enxergando arco-íris nessa existência de tantas dores, de tantas perdas, de tanto vazio, de tanta mudez. Percebo que ainda estou mergulhado no luto, não sei que transformações ele está me causando, mas com certeza não serei o mesmo ao emergir. Depois da terapeuta, mergulhei em uma sequência de encontros sexuais pagos, como se fosse um vício em narcótico. Não, não me culpo por agir assim. Durante a minha jornada, aprendi a gostar da solidão, como se a solidão, de forma paradoxal, fosse uma companheira, mas a solidão que experimentei com a morte do meu pai foi mais agressiva, mais destrutiva. Na verdade, não sei se posso chamar de solidão a sensação de ter a alma amputada.

Sou um libertino de raça pura, comecei pelo vício do sexo; continuei como consolo pelos relacionamentos fracassados, pela percepção de que o amor é uma miragem idiota; prossigo libertino para fugir de fantasmas, para sedar meus temores, para não pensar no que me apavora. Ser libertino não é um dom, não é uma glória pessoal, é a sensibilidade para encarar a própria existência e todo o horror que ela representa. O sexo para o libertino não serve para procriar ou perpetuar a espécie, é uma rota de fuga para o nada. Sigo mergulhado no largo escuro e frio, breves relampejos iluminam margens incertas. Penso, logo existo, e existir significa saber que tudo ao redor irá se decompor e desaparecer antes que os olhos se fechem.