Após um encontro com a Maya Gueixa, embarquei no metrô em direção ao Largo do Machado, minha intenção era assistir ao novo filme do 007 no cinema São Luiz. Eu estava adiantado para a sessão, decidi parar em uma adega em frente à praça e sorver uma taça de vinho tinto. O líquido rascante abria caminho pela minha garganta enquanto eu observava o ritmo lento da chuva que continuava a enxarcar as ruas, os homens e as almas solitárias. Você fica tão sozinho às vezes que até faz sentido — diz Bukowski no título sensacional de um dos seus livros.

Mantive-me ali sentado, envolvido por pensamentos vertiginosos e ininterruptos que cruzavam a minha mente. Pensar é benção e maldição. Percebi o incômodo de um olhar feminino fixado em mim, uma garota nova, que não devia ter muito mais do que vinte anos, me encarava sem trégua. Seria que outra me confundindo com o Francisco Cuoco? (vide Cuoco). Fiquei desconfortável, mas não perdi a firmeza e devolvia seus olhares sem encará-la de volta. A menina sorriu para mim, olhei para os lados como quem procura o alvo do sorriso, mas o alvo era este guerreiro combalido que aqui escreve. Morena dourada, com aparência de falsa magra, a ninfa estava acompanhada de um senhor grisalho, de óculos de armação quadrada e grossa, que nos fazia acreditar ser seu avô. A garota acenou me chamando para a mesa dela e eu apontei para o meu peito como quem quisesse confirmar que era a mim que ela chamava. Levantei-me desconfiado e fui verificar do que se tratava.

— Boa noite, meu nome é Sonise. Você está tão sozinho, não quer sentar-se com a gente?

O velho que acompanhava a menina me olhou de baixo para cima, como o legista que realiza autópsia em um cadáver.

— Posso me sentar com vocês, sim — enchi-me de ousadia e encarei o desafio.

— Qual seu nome? — Sonise me pergunta enquanto o olhar silencioso do velho persisita.

— Dante, meu nome é Dante.

— Prazer, Dante. Ah, esqueci… o prazer vem depois…

Quando a menina lançou esse clichê, as sirenes tocaram, os sinos badalaram, havia ali mais do que uma aparente simpatia e desejo de socializar. Muito desenvolta, Sonise conduzia o papo e seu acompanhante idoso praticamente só abriu a boca para anunciar o próprio nome, chamava-se Antero e era “tio” de Sonise.

— Ai, está frio. Vamos voltar para casa? Com esse tempinho, beber em casa é melhor. Não quer vir com a gente?

A imprudência e a ousadia me intrigaram. Que armadilha seria aquela? O estranho casal conseguiu fazer com que a minha curiosidade superasse os meus receios. Aceitei o convite. Fomos caminhando pela rua do Catete e quando alcançamos a entrada de uma vila com ares de filme de Hitchcock, Sonise anunciou que havíamos chegado. Olhamo-nos os três, o velho Antero abriu o portão e seguimos juntos…

Não sei explicar o porquê de algumas situações inusitadas ocorrerem comigo, talvez por eu perambular sozinho pela noite e pela cidade possa facilitar acontecimentos inesperados. Sou um sujeito discreto, quieto, de poucas palavras, um tímido que gosta de ouvir mais do que falar, vícios de jornalista e de escritor. O Catete é um bairro que me fala à memória, por um longo período frequentei um forró chamado “Alegria do Catete”, foi onde a minha vida sexual se intensificou no encontro com balconistas, empregadas domésticas e outras mulheres do proletariado. Foi no Alegria do Catete que conheci uma argentina que me proporcionou uma das melhores experiências sexuais que vivi até hoje.

Década de 80, quando também conheci uma das minhas primeiras paixões fulminantes, chamava-se Mônica, nos conhecemos em uma linha cruzada no telefone, ela morava no Leblon e marcamos o encontro em uma esquina da Av. Delfim Moreira. Tijucano, sem carro na época, fui de metrô e fiz baldeação na integração metrô-ônibus que tinha ponto final na praça Antero de Quental. Quando a garota surgiu com a roupa combinada para nos identificarmos, se revelou uma loira com traços parecidíssimos com os da Bruna Lombardi, era exuberante, fiquei tão intimidado com a beleza da menina que me escondi, não tive coragem de me apresentar. Um dia luminoso, o mar batia calmo nas areias da praia do Leblon, fim de tarde, tudo emanava romance. Dia que jamais esqueci, um dos epílogos da minha crença no amor.

Quando eu, Antero e Sonise entramos em uma das casas da vila, me deparei com uma sala pequena, escura e decorada apenas com um sofá e uma compacta mesa redonda. Antero se precipitou para um quarto quase colado ao cômodo em que estávamos e nos solicitou que não fizéssemos barulho, deixou a porta entreaberta, o que me causou estranheza. Sonise me pediu um instante, queria colocar uma roupa “mais confortável”. Sentei-me no sofá e aguardei.

Dois minutos depois, Sonise retorna em um baby-doll minúsculo e transparente que revelava suas curvas jovens e suculentas, seus seios pequenos e apetitosos. Continuei sem acreditar no que estava acontecendo. A garota se sentou ao meu lado, bem junto a mim, demonstrando o que queria que rolasse. Aproximei-me para o beijo, ela não recusou. Comecei a alisá-la enquanto continuávamos nos beijando, minha dúvida era se o velho Antero estaria assistindo tudo pela greta da porta entreaberta. Ao passar as mãos pelas costas de Sonise, percebi que estava arranhada.

— Machucou as costas? — perguntei.

— Ah, isso? Ralei a pele transando com um amigo do meu “tio” no tapete da sala.

Olhei para o tapete que se mostrava indiferente a minha presença e ao sexo que se demonstrava rotineiro naquele ambiente.

Sonise levantou-se, despiu-se do baby-doll, segurou meu atônito pênis enrugado e o encaixou em sua vagina. Sua cintura passou a se movimentar como uma centrífuga, rebolava em busca da minha erupção. O telefone tocou. Olhei para a porta do quarto tentando identificar algum olhar furtivo do depravado Antero. Sonise me puxa pela mão, inclina-se sobre a mesa de jantar e atende a ligação. Enquanto fala no aparelho, me induz a penetrar novamente em sua boceta.

— Já disse que não quero encontrar mais com você. Não quero mais — observo a conversa metendo na menina.

Sonise rebola no meu pau e continua dando negativas ao cidadão do outro lado da linha. Aquela situação foi me excitando. Era nítido que o cara estava implorando um novo encontro com a ninfa, mesmo sendo rejeitado de forma sádica. O cara implorava e eu metia no seu objeto de desejo. Sonise não gemia, mas rebolava, empinava a bunda, com uma das mãos arregaçava o rego. Ela desligou o telefone no mesmo momento em que gozei litros. Se a cena houvesse sido combinada, não sairia melhor.

— Você vai me dar um presentinho, né? — a teoria se fazendo valer, putas e libertinos se atraem como mercúrio.

— Por que você não falou antes? Nem sei se tenho dinheiro aqui — apalpei a carteira e abri para contar minhas parcas economias — Quanto você quer?

— Ah, anjo. Dá o quanto você acha que eu mereço.

Olhei para os meus últimos duzentos reais e perguntei se pagava.

— Claro que sim. Não é pagamento, é ajuda. Né?

— E seu tio? Não te ajuda?

— Só moro com ele.

Ficamos conversando alguns minutos. Sonise me contou que roda pelos bares do Largo do Machado e do Catete, às vezes com amigas, às vezes com o tio, às vezes sozinha.

— Não faço programas. Crio encontros — ela explica.

A hora avançou, nos despedimos e deixo a vila macabra em direção ao metrô, mas desisto de descer à estação e tomo um táxi. Duas gozadas em uma noite, uma programada a outra imprevista. O limpador de para-brisa do carro limpava as lágrimas do domingo, os pneus em velocidade constante iam cortando as luzes pálidas de vapor de mercúrio que iluminam a cidade. Eu olhava a paisagem passando, o tempo passando, tentando entender as peças que dão sentido à vida. O rádio transpirava acordes do Eurythmics. Adormeci.

Eurythmics

Dancinha