O domingo chuvoso e frio não motivava incursões fora de casa, mas provocava insistentes fantasias libidinosas. Eu estava enfurnado na minha fortaleza da solidão, rodeado pelos livros que custei uma vida inteira para ler para descobrir que estou mais próximo da ignorância do que da sabedoria, sentia-me embebido em um tipo de paz melancólica que me fazia rememorar os momentos dramáticos que vivi neste ano. Meu pai faleceu em um dia chuvoso há alguns meses, beirava a madrugada quando recebi o telefonema do médico para levar os documentos e reconhecer o corpo. A chuva torrencial alagava a rua sombria de Botafogo onde ficava o hospital, foi quando provei da solidão mais esmagadora que um indivíduo pode suportar.

Não sou de muitos amigos, me imponho critério rigorosos para amizades, não é meu amigo quem se comunica comigo apenas virtualmente, quem não despreza meus detratores, quem não possui senso de humor. Meu pai morreu cego pelo glaucoma, já estava mergulhado na escuridão antes de romper a fronteira das trevas definitivas, mas meu pai nunca foi triste. Sem a luz dos olhos, emanava a luz da alma. Alegre e brincalhão, cultivava uma alegria quase infantil. Meu pai morreu em uma noite de tempestade, sem mais enxergar as cores do mundo, mas não se entregou à tristeza; não, meu pai nunca foi triste. Talvez alguns considerem um sacrilégio eu comentar algo tão pessoal em um fórum sobre sexo, alguns podem me chamar de maluco… rótulos, rótulos que os medíocres oferecem para facilitar o próprio entendimento. Meu pai não consideraria assim, foi um homem de mente aberta e é possível que entendesse como uma homenagem original.

Após o falecimento do meu pai, caí em um luto profundo, acompanhado de uma depressão que fazia parecer que eu estava submerso em um lago escuro e frio, sem margens, sem mãos que pudessem me amparar. Tive a sorte de encontrar algumas vozes que me telefonavam todos os dias, que me puxavam para que eu não me afogasse, que lançavam boias naquele lago escuro onde eu sentia frio, onde me sentia só. Amigos são esses que se fazem presentes na ausência, que se fazem salvação no naufrágio, que se fazem vozes no silêncio, que se fazem compaixão diante da agonia. A vida é desencanto, uma sucessão de dores e perdas, o tempo não transforma nada, mas consome tudo, o tempo consome a si mesmo na fome autofágica de quem deseja exterminar a existência sem sentido. O universo não se expande, encolhe sem cessar, acho que a gente morre para não ficar deslocado.

Os inimigos amargos comemoram a dor dos seus desafetos, mas existem pessoas que apreciam a inteligência, a sensibilidade e o talento. Os amargos e sem talento só idolatram a ignorância que não permite o perdão ou a compreensão do que é diferente deles. O ignorante sempre reverbera a impossibilidade de ser humano. Sempre fui criterioso com as minhas amizades, tenho pouquíssimos amigos, sou quase um misantropo, porém, mesmo com tantos critérios para estreitar laços de estima, tive tantas decepções com amigos como tive com amores. É por isso que digo que o libertino nasce do desencanto e floresce na solidão. Apesar disso, o libertino respira inebriado o ar de sua própria poesia.

O que me fez emergir da depressão foi me anestesiar pelo sexo, pelos prazeres mundanos, pela imersão na noite, pelo resgate da força maior que há em mim: a libertinagem. A vida seria insuportável se não pudéssemos nos entorpecer de pequenos e grandes prazeres, porque a vida é dor, é perda, é ausência. Não existe Deus para mim, sou ateu, vejo o princípio e o fim. Desacreditei no amor romântico faz séculos, me libertei das doutrinações sociais, isso me fez mais só, mas também me fez mais livre.

Perdido em tantas reflexões, peguei o celular e arrisquei enviar uma mensagem para a Maya. Sendo domingo, esperei que ela não respondesse, mas ela respondeu e estava disponível. Marquei em sua sala para o final da tarde sem ter certeza de que realmente desejava sair de casa contaminado pelo estado de espírito em que me encontrava. Até o último minuto fiquei em dúvida, mas escolhi arriscar a experiência. Quando desembarquei do metrô, avistei uma Cinelândia completamente deserta e sob uma névoa londrina, pisei firme com minhas botas pelos paralelepípedos da rua Álvaro Alvim até alcançar o número 37. O porteiro me pede identidade, anota meus dados em uma ficha e me libera para subir. Toco a campainha e alguns segundos se passaram antes que eu ouvisse o girar da fechadura. A porta se abre e uma morena sensualíssima, de cabelos negros escorridos pelos ombros, coberta por uma blusa escura e transparente, me convida para entrar. As primeiras palavras que eu disse foram as que 99% dos clientes dizem a ela.

— Você se parece com a Juliana Paes.

Depois disso, começamos pelos beijos na boca, pelo roçar dos corpos, pelas carícias que mapeiam os pontos sensíveis. Tomei um banho rápido e, na cama, deitei-me sobre o corpo macio e tenro de Maya. Mais beijos, mais amassos, manobras ousadas. A mulher é dona de um par de seios belíssimos, suculentos. Maya é bonita, de uma beleza exótica, é uma fêmea pedaçuda, voluptuosa, que não se nega ao toque, ao arrepio, aos apelos da carne. Admito que chupei muito seus peitos, depois desci para a boceta úmida, lambi seu clitóris enquanto ela se contorcia e gemia alto. Escalava novamente suas curvas para reencontrar sua boca, deslizava para baixo para degustar sua boceta num vai e vêm erótico que eu não queria que terminasse. Não pedi para que ela me chupasse, não pedi nada para mim, apenas explorei sua geografia como um bandeirante entrando afoito em terras desconhecidas. Ela fica de quatro e eu a penetro com a sede dos camelos do Saara. Muito excitado com a entrega espontânea da garota, gozei rápido, gozei muito e desabei extasiado. Maya é maravilhosa e me ofereceu o Sol em um dia mórbido e cinzento.

Conversamos um pouco e me despedi. Estava decidido a assistir ao último filme do 007 e peguei o metrô para ir a um cinema do Largo do Machado, mas o que eu não sabia é que estava prestes a vivenciar um dos episódios mais inusitados da minha história e que virá no próximo relato