Um libertino é um desajustado social, afirmo isso pelo meu próprio exemplo, um homem que já ultrapassou a meia-idade, celibatário e sem filhos. Nunca me casei. Como você imagina os julgamentos que desperto, afeiçoado leitor? O cidadão ou a cidadã tradicional me conhece deve pensar: tem algum problema; é maluco; ou, muitas vezes, é gay. Não é fácil ser um libertino legítimo como eu sou, chegar em casa e estar sozinho, planejando futuras fugas, locais que possam despertar alguma nova emoção após tantas emoções já vividas, sonhar com o encontro com uma mulher que me cause impacto. Seria uma vida vazia se eu não a preenchesse em outros aspectos, sou um leitor voraz, um cinéfilo faminto, mas nada supera a libido que sempre me empurra para o abismo da luxúria. O libertino é um ser diante de abismos, ama o risco e é nesse risco que encontra o sentido da própria existência.

Preferia ter batizado este tópico como “Lapa”, mas tive receio de que uma referência genérica não cumprisse o padrão do fórum. A verdade é que me refiro a rua Gomes Freire, mas a Lapa inteira se tornou um celeiro de promiscuidade. Confesso que não sou um habitué dessa nova Lapa submersa em luzes de neon, frequentei a Lapa mais antiga e decadente, onde o ponto do frenesi era o forró do Asa Branca nos fins de semana e a boate Dominó, mais à frente, na Men de Sá; o Circo Voador com a Orquestra Tabajara aos domingos. Lembrei-me de uma época em que, sem dinheiro, eu esperava algum promoter do Asa Branca distribuir convites na entrada da casa. A Lapa sombria dos travestis, das putas de segunda classe, dos pés-sujos mal frequentados, essa foi a Lapa dos meus primeiros passos lascivos. A nova Lapa passei a frequentar há pouco, fui mapeando, estudando a sua geografia tortuosa, me ambientando nos guetos e tive a certeza de que a prostituição floresce ali como as gigogas nos pântanos. E não é necessário entrar na boate Up para conquistar a convicção, basta observar os bares com mulheres rebolativas na entrada, insinuando-se como chamarizes para homens incautos; olhares furtivos de ninfetas em roupas que exalam erotismo; a sede do álcool; os olhos turvos das fêmeas embriagadas e monetizadas. A Lapa voltou a ser uma grande cafetina, camuflada, mas impudica.

Após algumas semanas consecutivas explorando os recantos mais obscuros, as esquinas mais desregradas, as calçadas mais voluptuosas, os bares mais dissolutos, decidi marcar um território e me colocar como isca. Sentei-me em uma das mesas de rua que ficam na Gomes Freire entre a Men de Sá e rua do Rezende, local de intensa concentração de mulheres e outros bichos. Quando estava a caminho da área escolhida, passei na porta de um caquético sobrado onde um rapaz barbado, de cueca e espartilho, convidava quem o encarasse para subir, uma longa escadaria vermelha fazia o fundo de sua presença exótica. Não, não me acometeu nenhum interesse em conhecer aquela entrada do inferno. A Lapa do libertino é feito desses vãos, pequenos portais, às vezes imperceptíveis aos olhos desatentos, que nos levam a universos ainda não descortinados.

Não seria exagero afirmar que a Gomes Freire é o coração da Lapa, a concentração humana por metro quadrado é quase sufocante. Encontrei uma mesa livre e me acomodei. Comecei a pensar que seria difícil ver e ser visto naquela posição engolfada pela multidão ao meu redor. Pedi uma cerveja, duas, três, quatro. Sim, é neste ponto que as pupilas se dilatam, o mundo reluz, o feio fica bonito, o impensável se reverte em cogitação, o impossível desaparece do dicionário. Ébrio, o melhor estado para um libertino. É preciso libertar a mente para libertar a alma. Reparei em uma ou outra mulher que transitava rastreando as mesas, não sei se buscando lugar ou vítimas, fiquei atento. Eu precisava de um corpo quente naquela noite, de uma textura nova e fresca, eu necessitava de uma vagina como o vampiro que saliva por uma jugular. Embriagado, mas atento, não perdi a entrada glamurosa da loira emoldurada por um curtíssimo vestido branco, com um decote em V que exibia parte dos seios sedosos e estufados, as pernas torneadas cobertas por uma penugem loira oxigenada tornava a sensualidade natural da mulher quase irresistível. Ela vinha acompanhada de uma amiga, sondavam um lugar vago para acomodarem-se enquanto eu me vi hipnotizado pelas pernas incomparáveis daquela vênus platinada.

Sentaram-se não muito distante de mim. Só de olhar a garota meu combalido pênis despertava do formigamento e começava a dar sinais de vida. Fiquei encarando a loira sem trégua, até que nossos olhares finalmente se cruzaram, num gesto tresloucado ergui o copo como fizesse um brinde, ela desviou os olhos. Pense, estimado, o que poderia ter calculado uma mulher ao ver um homem velho, sentado sem companhia em uma mesa da Lapa, erguendo um copo em sua direção? Patético. Não me condeno, toda tentativa é válida. Não desisti, continuei encarando mesmo sem retorno. Decorrido uns 20 minutos, ela e a amiga pagaram a conta e se levantaram, ao sair, cruzando a minha mesa, foi ela que me encarou. Eu poderia ter esboçado um sorriso, feito um gesto qualquer, dado uma piscada, mas fiquei gélido como um corpo em rigidez cadavérica. Afoito, sinalizei para todos os lados a procura do garçom, eu precisava pagar a conta, eu precisava segui-las.

Parte 2

Paguei a conta sem perder as presas de vista. Levantei-me estabanado e acelerei o passo em perseguição àquelas loiras pernas reluzentes. De algum bar emergia uma batida na voz de Lady Gaga.

Lady Gaga – Bad Romance

— Dante, como você consegue lembrar desses detalhes? — perguntaria aquele forista chato, cismado comigo, com tiques de stalker.

— O que resta a um velho, afeiçoado forista, que não seja a obsessão de preservar a própria memória?

As duas continuavam numa rota que parecia pré-determinada e para o meu azar entraram em um desses bares com música, lotadíssimo. Fui atrás. Dez contos de entrada e lá estava eu, no meio de uma muvuca sem fim. A galera se esganiçava cantando “Deixa Acontecer” (o destino me aplicando pegadinhas).

Deixa acontecer

Para não ficar deslocado, ia rebolando meu corpo dissonante para conseguir deslizar entre a multidão, tentando não perder a loira da mira. Claustrofóbico, me dei conta de que não conseguiria ficar muito tempo naquele ambiente. Nessa altura, eu transpirava litros. Só vi uma saída, a cartada definitiva. Saquei um dos meus providenciais cartões de visita, embrenhei-me corajosamente pela selva de gente e abordei a mulher.

— Queria muito falar com você. Não é cantada, mas como aqui será impossível para conversar, posso deixar meu telefone?

— Não é cantada?! — a loira deu uma risada sexy que eriçou todos os meus pentelhos — A gente pode conversar agora, mas estou trabalhando.

Sim, forista sem fé, provava-se novamente a egrégia teoria, libertinos e putas se atraem como mercúrio.

— Podemos sair daqui? — perguntei.

Ela cochichou com a amiga e eu deixei o lugar escoltado por aquele deslumbre feminino. Na rua, pedi duas cervejas para um sujeito que vendia no isopor e a loira topou sem criar caso, o que me fez considerá-la ainda mais interessante.

— Você está trabalhando em quê? — indaguei me fazendo de idiota.

A loira frisou os olhinhos em um sorriso que quase me provocou ejaculação precoce.

— Você sabe…

— E rola tudo? — prossigo tateando.

— Só sei fazer assim, com tudo.

Novamente, meu combalido pênis estremeceu numa simulação de abalo sísmico.

— Quanto?

— Trezentos.

— Eu estou com duzentos e cinquenta aqui. Pode ser?

A loira me olhou de cima abaixo e balançou a cabeça concordando.

— Como vim beber, estou sem carro. Tem algum local próximo que você conheça?

— Tem o Hotel Estadual. Dá para ir a pé.

Lado a lado, partimos em direção ao tal Hotel Estadual, na rua do Rezende. Arrisquei dar a mão a loira e ela até se aproximou de mim, se mostrando muito receptiva. Lembrei-me de que não perguntei nem o seu nome.

— Ivana. E o seu?

— Dante, me chamo Dante.

E das caixas de som de um boteco desaguava um som moderno e estranho…

Dance Monkey

— É aqui — Ivana aponta o hotel com face decadente.

No melhor prefácio do sexo, nos olhamos e colamos os lábios em um beijo que percorreu a jornada do meu imaginário até alcançar o real enroscar das línguas em sede. Entramos…

Parte 3

Na recepção do Hotel Estadual me veio a impressão de já ter estado ali. Na nossa frente havia um gordinho pegando a chave do quarto, estava com uma travesti, dessas que, se eu não estivesse com uma loira hollywoodiana ao meu lado, poderia pensar que o gordinho se mostrava mais bem acompanhado. O quarto básico emanava uma aura retrô, a loira foi para o banheiro e eu iniciei o ritual de me despir. Ouvi gritos de uma mulher que parecia estar no clímax do ato sexual, algo tão intenso que foi capaz de me excitar. Liguei o rádio do quarto, só consegui sintonizar em uma estação de pagode que tocava uma batida do grupo Revelação…

Coração Radiante

A loira saiu do banheiro emoldurada por uma lingerie de ressuscitar Lázaro. Que visão, capaz de comover o pênis mais indiferente. Enquanto ela se aproximava, o som do Revelação invadia a alcova…

O que mais quero é te dar um beijo
E o seu corpo acariciar
Você bem sabe que eu te desejo
Está escrito no meu olhar
O teu sorriso é o paraíso
Onde contigo eu queria estar
Ai, quem me dera se eu fosse o céu
(Você seria o meu luar)
Só pra mim
(Como as ondas são do mar)
(Não dá pra viver assim)
(Querer sem poder te tocar) Eu te quero só pra mim

Alisei os pelinhos loiros das coxas grossas da loira, ela puxou minha cabeça de encontro a sua vagina cheirando a lavanda, puxei a ponta da calcinha e dei uma linguada que arrepiou a menina. Ela se agacha e me beija oferecendo sua língua à minha traqueia. Foi neste instante que me conscientizei da minha sorte, foi quando a vida ganhou sentido. O libertino é um tipo de Indiana Jones em busca do templo perdido, o tesouro almejado é a boceta ainda intocada por ele.

Corpos se roçando, o pau esbarrando nu da chaninha úmida da mulher, braços enlaçando troncos, pernas se embolando na pretensão de um nó cego. A garota se esgueirou pelo meu tórax, deslizou pela minha barriga ovalada, alcançou a virilha e abocanhou meu pau com a fome de uma piranha do rio São Francisco. Sim, meu valioso leitor, ela começou o boquete por uma mordida leve no meu pênis para depois curá-lo com seus lábios mornos e ágeis. Quando percebeu que poderia me levar a ejaculação precoce, Ivana montou em meu tronco e introduziu meu pau em sua vulva sem pensar na camisinha. Caralho! Eu me deixei levar, a loira demonstrava estar excitadíssima, talvez efeito do álcool que havia consumido. Ela rebolava em cima de mim, gemia, me trazia a boca para me beijar em frenesi. Resistir é inútil. Ejaculei até a alma.

Após o incêndio da insanidade sexual, ficamos deitados, nos acariciando. Dormimos para o dia nascer feliz.