De repente, fez-se um silêncio de esmagar tímpanos. Nenhum carro passava, nenhum corpo se movimentava. Na penumbra, só havia eu e a escuridão. Se uma coruja chiasse, estaria montado o cenário de terror.

Havíamos marcado numa das esquinas da Rua Cândido Mendes, na Glória. Ela estava atrasada.
Conhecemo-nos através da Comunidade sobre sexo do Orkut. Um dia, ela me manda uma mensagem dizendo que lia meus relatos e tinha imensa curiosidade em me conhecer. Soube que eu apreciava ir a clubes de swing e se ofereceu para me acompanhar. Aceitei.

O clima era de suspense. Ambos, não sabíamos o que iríamos encontrar. Não trocamos fotos e jamais tínhamos nos visto. Só havia os nomes e a referência das roupas com que iríamos comparecer ao encontro. Chamava-se Gorete. De repente, naquele silêncio de triturar tímpanos, sinto um toque em meu ombro. A mão emergia da penumbra. Giro a cabeça para trás e a vejo…. Neste ponto, se uma coruja cantasse, talvez vocês ouvissem um grito de horror.

Façamos um intervalo para uma divagação. Que misteriosos caminhos percorrem a memória. Quando olhei para trás e vi a Gorete, fui imediatamente remetido a um episódio vergonhoso da minha vida. E por que eu negaria um vexame? Escrever é exorcizar fantasmas. Era Natal! Uma vizinha jovem e charmosa que estudava Teatro decidiu montar uma pequena peça com as crianças da minha rua. Iríamos encenar o nascimento de Jesus. No final do espetáculo, seríamos um presépio vivo. Então, ela começou a nos chamar para a distribuição dos papéis. Recebi a notícia: eu seria um boi. Sim, leitor sem fé, um boi! O presépio vivo também seria composto por animais e estes animais seriam representados por algumas das crianças.
Aquela jovem me odiava e eu senti o seu sadismo quando me delegou o personagem ruminante. Para selar a humilhação, ela me comunicou que eu teria uma fala. Que fala? Eu mugiria quando os Reis Magos entrassem em cena. Pasmem!

Tentei livrar-me daquele embaraço, mas a menina possuía argumentos fortíssimos para me convencer sobre a importância da participação do boi na cena. Fui obrigado a me curvar. Minha fantasia era um saco de estopa que pinicava e um chifre precário, feito de arame e isopor.

Dia do espetáculo, auditório cheio de pais e mães. Minha entrada era no fim da encenação, quando o presépio se constituísse. Eram apenas dois os papéis de animais: o boi e um burro, mas somente o boi teria “fala”. A peça chega ao clímax, forma-se o presépio. O menino Jesus (representado por um desses bonecos da Estrela) toma o centro das atenções. Os Reis Magos surgem e com eles o meu momento de triunfo. Era o sinal, começo a mugir. À minha frente, meu coleguinha que encarnava o burro me olhava com um melancólico ressentimento, não compreendia por que não lhe fora oferecida a oportunidade de zurrar. Um simples zurro teria aplacado o seu despeito pelo meu boi.

E, se antes que as cortinas caíssem, um olhar mais afeito às sutilezas da alma tivesse observado aquela cena, captaria na sua essência um momento de intriga palaciana: o menino Jesus cercado de mimos e proteção, um boi mugindo eufórico (fazendo jus aos aplausos) e um burro invejoso que secretamente planejava o seu assassinato. Mas voltemos ao assunto que interessa, vamos recuperar o fio da meada.

Quando olhei para trás e topei com a Gorete, talvez eu tenha lembrado do memorável mugido do boi, tive a mesma vontade de gritar e fugir dali. A explicação do choque virá na descrição do próximo parágrafo.
Gorete era uma gordinha que usava óculos de leitura; não passava muito de 1.50 m de altura; devia pesar uns 80 kg; tinha um leve buço acima do lábio superior, um tipo de bigodinho que cresce em adolescentes e em algumas mulheres.

Gorete era a antimulher, a antibeleza. Porém, era simpática, falante e até carinhosa. Como eu já estava ali, o meu terror foi se dissipando e lembrei que o objetivo era o swing. Decidi prosseguir com os planos.
Chegamos à Mistura Certa, havia uma pequena fila, era a corrida pelo desconto que transforma a entrada em consumação até as 23h. Como o local não é muito discreto e eu não estava me sentindo muito confortável com a gordinha, pedi que ela esperasse no carro enquanto eu permaneceria na fila guardando nossa posição.

Por que quando queremos ficar invisíveis sempre aparece um puxador de conversa inconveniente? São as brincadeiras de mau gosto do Universo. Enquanto eu tentava me esconder sob a malha fina da discrição, um tagarela me aborda.

– E aí? Tá cheio hoje! – Ele começa o papo.

– É… – Respondo sem ânimo.

– Vem sempre?

– Não. Segunda vez.

– Eu vinha sempre com minha esposa, estávamos viciados, mas demos um tempo. Estou retornando hoje.

– Legal. – Continuo respondendo sem ânimo.

– Pô, mas tem uns caras que trazem cada mulher pra cá que não dá. Transformam a boate em trem fantasma.

Foi nesta altura do diálogo que o desconforto deixou de ser locatário e tornou-se proprietário da minha mente. Imagine o que o sujeito pensaria quando a gordinha saísse do carro e viesse me encontrar? A humilhação estava a caminho…

Minha mulher não é uma Deusa, mas é ajeitadinha. Ter que encarar os tribufus que esses caras trazem é dose. – Continua.

– É… A que eu trouxe hoje não é grande coisa, mas é só amiga. Ela queria conhecer, sabe como é… – Comecei a me justificar prevendo minha condenação por uma criatura que eu nem conhecia.

– Sei…

A fila começou a andar. A gordinha deixou o carro e se aproximou, a esposa do tagarela também apareceu e era bonita.

O olhar que o tagarela me lançou ao ver a gordinha me abraçando foi daquele tipo de “Touro Premiado”. Eu, humilhado pela obesidade mórbida ao meu lado, devo tê-lo encarado com o olhar do Burro que ansiava zurrar. Entramos no swing…

A gordinha logo se revelaria uma obsessiva sexual. Ela me puxou para o labirinto; tentou beijar mulheres; levantava o vestido e empinava a bunda para qualquer homem que se aproximasse; arriou minhas calças e praticou um boquete público e depravado. A gorducha desvairou naquele ambiente de promiscuidade, revelou-se ninfomaníaca.

Mesmo se oferecendo como banana em liquidação, a gordinha não conseguia que ninguém a comesse, fato que também me afligia. Foi quando me deu o golpe fatal. Encostou-me na parede, lançou-se sobre a minha cintura, agarrando-me com as pernas e segurando meu pescoço com as mãos. Minha meia-idade não aguentou os seus oitenta quilos. Minhas costas suplicaram por clemência, mas era tarde demais. Ao mesmo tempo em que meus ossos sofriam uma implosão, padeci de uma cãibra abdominal, algo inédito no meu histórico de dores físicas.

Pedi arrego e voltei entrevado para o salão. A gorda, ainda insatisfeita sexualmente, me pediu permissão para voltar sozinha ao labirinto. Eu não só permiti como dei a bênção. Relaxei, sentado e esperando meu corpo se recuperar da sensação de ter sido pisado por um elefante. A gorducha retornou ao labirinto. Como a menina não voltava e eu não conseguia mais conter meu desejo de ir embora, fui procurá-la.

O Inferno ainda me propiciou uma última visão. Encontrei a gorducha sentada num canto penumbroso, pernas abertas e sendo seviciada por dois homens e uma mulher. Enquanto um a penetrava, ela chupava o outro e a mulher brincava com seus enormes seios. Uma cena que poderia estar em qualquer filme sobre a vida animal. Aquele sexo grupal durou uns vinte minutos. Quando terminou, resgatamos o Sucatão, desovei-a na porta de casa. Finalmente, pude fugir.

Deitado na proteção da minha cama, eu fechei os olhos e senti o silêncio que me acariciava os tímpanos. Pedi desculpa aos meus ossos pelos maus tratos a que foram submetidos. Adormeci e não sonhei.