Há alguns anos que sofro de insônia e a insônia é uma espécie de imortalidade, enquanto os outros morrem nos breves intervalos do sono, o insone vive sem trégua. Sábado à noite. Tenho apreciado ir a Lapa nos fins de semana, saio em voo solo, já que é difícil encontrar entre os amigos casados aqueles que continuaram donos da própria vida.

— Dante, mas Lapa sozinho é osso, é chato — digo a você, leitor carente, nunca tive problemas com a solidão, gosto da solidão, a solidão para um libertino é um caso de amor, é desejo de grávida. Há quem queira impingir à solidão um sentido de tristeza, de melancolia, esqueça as ideias que o sistema quer infiltrar em sua mente. A solidão é temida porque ela representa uma liberdade tão absoluta que se torna perigosa.

Primeiro caminhei até o Beco da Noite, mas não encontrei aquela alegria dos musicais de Hollywood, como da última vez em que estive no bar. Meia dúzia de pinguços assistindo a um jogo de futebol na TV, forró tocando como fundo sonoro, nenhuma mulher, nenhuma alma perdida além da minha. Voltei para o miolo da Lapa, mas o meu desejo de um chope no Bar Brasil foi aguado quando constatei que todas as mesas estavam vazias, nenhum cliente, não tive coragem de entrar. Caminhei a esmo até parar em frente a uma espécie de casa de música chamada “Insensato”, a quantidade de mulheres estonteantes era incontável, uma janela aberta para a rua exibia bundas rebolativas e desinibidas, dançando empinadas para as estrelas, cus apontados para o infinito. Fiquei com a certeza de que o local também cultiva a frequência de garotas liberais, mas não quis entrar, me senti despreparado naquele momento para a azaração explícita. Fora isso, eu não estava com o meu material de trabalho.

— Que material Dante? — pergunta a curiosidade de um forista.

Explico. Quando a modalidade é azaração, uso uma técnica que desenvolvi há muitos anos e que costumava funcionar, não sei se ainda seria eficiente com a nova geração de mulheres. Eu chamava a minha ideia de “técnica de panfletagem”, consistia em imprimir cartões de visitas com meus dados, mirar uma presa, realizar a aproximação e soltar o script pré-fabricado.

— Olá, meu nome é Dante, queria te deixar meu contato, mas não estou com segundas intenções, não. Se você puder, me chama pelo celular porque é um papo importante, sério. Não converso aqui porque está muito tumulto, mas me chama pelo celular.

Eu mandava essa letra, virava as costas e voltava para a minha posição inicial. Se eu fizesse umas dez abordagens desse tipo, era certo de que umas duas meninas me contactassem movidas pela curiosidade feminina, quando, então, eu falaria do meu interesse e jogaria o convite para um encontro romântico. Os meus critérios para a escolha das vítimas eram rigorosos. Preferi não experimentar o “Insensato” naquela noite, mas fiz a promessa de explorar o ambiente em outra oportunidade. Caminhei mais um pouco e me deparei com a UP HOUSE, um bordel disfarçado como boate na Av. Mem de Sá. Não contemporizei muito, entrei.

O bordel não estava cheio, havia umas cinco mulheres atraentes dentre umas dez que se esgueiravam pela pista. Não pretendia consumar o sexo com ninguém, mas uma morena ligada em 220 volts me chamou a atenção. Coberta por um biquíni microscópico, a garota exibia curvas que pareciam uma obra póstuma do Niemeyer, sexy e sorridente ela percebeu o meu olhar salivante e se aproximou.

— Oi, tudo bem? Meu nome é Keila e o seu?

Fiz a entrevista enquanto ela rebolava a bunda sobre o combalido Pikachu, que dava sinais de que não estava num dia inspirado. De repente, a morena move o rosto e me tasca um beijo que quase extraiu meu esôfago e uma parte do fígado, depois disso não pensei duas vezes: solicitei uma alcova.

Eu queria fazer uma higiene básica, mas o banheiro não tinha água. Reclamei com a moça da marcação que me informou que pediria para “ligar a bomba”, foram uns 20 minutos de espera até que a bomba bombasse a água corrente jorrasse pelas bicas. Limpeza concluída, fui para a masmorra. Digo masmorra, porque é o que parece o pequeno cômodo escuro destinado ao sexo, uma luz vermelha forte, cama baixa e uns quadrinhos na parede que pretendem sugerir erotismo. Keila demorou meio século para entrar no quarto, me explicou que também padeceu com a falta de água. Parti para beijar a menina, que beija com língua enroscada, troca de saliva e roçada de corpos. Desci para chupá-la, suas coxas apertavam a minha cabeça, a garota gemia, se retorcia. Aplicou-me uma boa chupada, pedi para que ficasse de quatro e pude confirmar a bela visão curvilínea que o corpo dela exibia. Meti e gozei.

Sinceramente, a Up é um trash com preço de puteiro premium, talvez por ficar na Lapa ouse cobra um valor que não corresponde à qualidade das mulheres nem às instalações. Não é um rendez-vous que desperte emoções fortes, as meninas, em geral, não se aproximam, a música é chata e a pista vazia. Foi mais uma experiência que vivi no local para confirmar que não vale o preço. Pago e ganho a rua, volto a caminhar sem rumo, em frente a um bar próximo a Gomes Freire (Boemia da Lapa) ouço um som familiar, interrompo os passos para ouvir, um grupo dançava e cantava eufórico ao som da balada, a remota voz de Raul Seixas transbordava das caixas de som cantando Gita…

“eu sou a a luz das estrelas
Eu sou a cor do luar

Eu sou as coisas da vida
Eu sou o medo de amar”

A noite é a alma do libertino, o labirinto de mistérios e espantos que ele percorre com a fome destemida dos que não dormem. Como tudo na vida, a noite não é eterna, termina quando a pretensão do Sol tenta desmascarar todas as sombras, mas durante o dia o libertino se torna a sombra do corpo que habita.

“eu sou o amargo da língua
A mãe, o pai e o avô
O filho que ainda não veio
O início, o fim e o meio

O início, o fim e o meio
Eu sou o início, o fim e o meio
Eu sou o início, o fim e o meio”

Ave, Libertinos.