BABALU

Boate Subsolo – Av. Rio Branco – Centro – RJ

Aos obtusos, deixo um aviso: não queriam ler muito além dos primeiros parágrafos deste relato, pois as linhas que prosseguem por esta página surtirão efeito apenas nos que têm fé.

Lembro-me de um episódio do final da minha adolescência, sentado diante da imensa tela do Cinema Carioca, na Tijuca, esperando para assistir o primeiro filme de Indiana Jones. À medida que a película se desenrolava, tive a certeza que minha vida precisava passar longe do tédio. Foi numa cadeira do Cine Carioca que decidi me equilibrar no fio da navalha, fugir da mesmice. Nunca frequentei regularmente lugar algum, fugi da prisão que me prendesse a uma mesma mulher, evitei ter filhos, odeio ter chefes e amo fanaticamente a liberdade.

Não há mistérios sob a luz do Sol, mas à noite…. É ao anoitecer que o mundo revela seu fascínio, tudo muda de cor, é quando algumas mulheres trocam de nome e despertam os libertinos, é quando as luzes de neon iluminam o mar negro do asfalto, é quando me torno Dante. À noite não sou dono de nenhuma verdade, sou um aprendiz conduzindo um táxi pelas veias da cidade.

Visto a pele que me faz lobo, entro na pequena cabine, encaixo a chave na ignição, aciono o motor, escuto um grito furioso ao pisar o acelerador, que soa como acordes de uma guitarra estridente, num solo que faz vibrar o sangue. A porta da garagem se abre e nos lançamos, eu e o Sucatão, dentro do oceano de brilhos e sombras que cortam a cidade estrelada.

Aos obtusos, ofereço um conselho, parem a leitura por aqui! Somente os que acreditam podem saborear as descobertas da Noite, só os verdadeiros boêmios são capazes de enxergar na escuridão.

Eu vivo quando você dorme, sonho enquanto você tem pesadelos, caminho pelos becos escuros, exploro os subterrâneos libidinosos, beijo as vadias das esquinas, me apaixono pelas putas da Zona. Sou livre!

Afeiçoado obtuso, aceite o alerta, não ultrapasse a fronteira desta linha, é daqui para adiante que começa a aventura, o risco de viver… Ligo o rádio e o som que brota das caixas inunda meus ouvidos e embala a adrenalina. Acredite, leitor sem fé. A Noite é repleta de segredos, surpresas, sussurros e mulheres sem rumo.

Quase meia-noite, uma brisa fria e perfumada pela maresia cruzava a Praça Mauá naquela quinta-feira. Primeiro fiz a introdução na Flórida, prefiro entrar na Subsolo após o início da madrugada. Bebi meus chopes, observei as poucas novidades e retornei para o ar gelado da Rua do Acre.

São poucos passos até chegar à entrada da boate, cumprimento o porteiro, percorro o curto corredor, desço alguns lances de escada e me embrenho pelo porão da promiscuidade. O lugar é pequeno, cercado de mesas que rodeiam uma minúscula pista de dança, algumas garotas perambulavam perdidas, vampiras farejando o odor da caça.

Música, fumaça de cigarros, álcool, prostitutas, garçons com ares de malandros, todas essas peças completam o Cabaré que conhecemos como Subsolo. Fiquei escorado num canto qualquer, foi quando a vi rompendo a penumbra: Babalú, a fantasia do seu nome próprio. Mulata alta, de porte graúdo, cabelos compridos que escorriam em ondas de cachos dourados pelas suas costas, quase alcançando o quadril. Os olhos da morena tinham aquele tom indomado, de formato repuxado, olhos de felina, olhar de predadora. Surgiu num vestido curto, colado nas curvas alucinantes do seu corpo. Babalú é como o desenho de um tobogã composto por curvas vertiginosas, que descrevem seios e bumbum provocantes, hipnotizantes. Não perdi tempo, avancei para abordá-la. Ela não é o tipo que duraria muito no salão.

Encostou o corpo bem junto do meu, aproximou os lábios num quase beijo que me fez sentir sua respiração e rebolava levemente enquanto explanava sobre suas qualidades de amante. A sensualidade dela é como lava de vulcão, nos carboniza em poucos segundos. Diz que está chapada de tequila e cheia de tesão.

Acertamos a parte comercial do encontro. Saímos em direção ao Hotel São Bento.

Pago adiantado o quarto, o que me daria o direito de estudar a geografia da mulata de tamanho GG por uma hora, sem interrupções.

Dentro do quarto, ela tira a roupa e revela que não é uma simples mulher, é uma montanha sexual, uma miragem erótica, uma sereia de ébano que canta, encanta e devora quem navega em seus domínios. Começamos a nos beijar e ela desce pelo meu tronco e me abocanha numa chupada faminta. Volta por cima de mim e me oferece seus seios lindos, suculentos. Fica de quatro, se empina e me faz o convite.

— Quero você na minha bundinha.

Que bunda! Bunda de revista! Bunda de manchete! Bunda indefectível!

Não sou um viciado em anal, encontro prazer sem ter que exigir esta modalidade de coito, mas a forma como ela ofereceu, o jeito que se empinou, meu coração palpitou mais forte, o ar ficou rarefeito, minha respiração ofegou.

Comecei penetrando devagar, ela gemia, abria com as mãos as duas bandas das nádegas, lançava seus cabelos cacheados para trás, desejava que os puxasse. Meti numa cadência lenta, fui aumentando o ritmo, ela gritava, curvava ainda mais as costas, lançando a bunda em direção ao céu e ao meu deleite. Gozei com um dos melhores anais que uma fêmea já me proporcionou, ejaculei parte da minha alma. Gozar com a Babalú é saltar em queda livre e com olhos vendados.

Recuperamos o fôlego e nos vestimos. Fiquei observando enquanto, também, me entregava a filosofices. Babalú é dessas mulatas cuja presença afronta, é tão perfeita e deliciosa que ofende, é daquelas mulheres que quando andam na rua deviam pedir desculpas para cada passante. Sua opulência de carnes é grosseria, sua suntuosidade sexy é falta de educação.

Percorro a Rio Branco e desemboco na Rua do Acre adormecida, embebida numa paz sepulcral. A decadência é linda em lugares antigos. A decrépita Praça Mauá possui um charme enigmático. Encostado a uma sarjeta, lá estava ele: fiel, amigo, parceiro, o meu Sucatão.

Giro a ignição, acelero, os pneus giram prometendo me levar para algum lugar que não sei onde, para os braços não sei de quem, para prazeres imensuráveis. O melhor da vida é a incerteza, o melhor de viver é o inesperado. Mas é à noite que recebo outro nome, sob o céu escuro me chamo Dante.