Liberdade é a solidão sem melancolia. E assim eu vinha meditando na contagem dos meus passos sobre o quanto a minha jornada teria sido diferente com um casamento, filhos e toda essa bagagem que o solteirismo nos dispensa. Passar pelos quarenta anos ainda solteiro faz o celibato virar religião, um sacerdócio. Confunde-se o solteirão, após essa curva cronológica, com um libertino sem cura.

É preciso resistir à doutrinação de Hollywood e das novelas da TV Globo para chegarmos à maturidade compreendendo que o Romance não existe e que o Amor se resume a uma sofisticada conspiração psicológica motivada pela nossa face mais primitiva: o instinto de perpetuação da nossa insólita espécie.

O Amor é uma arapuca dos sentidos. A maior vantagem do solteiro sem herdeiros é ter a escolha de não ser escravo das responsabilidades.

Fui forçado a emergir das minhas filosofices por conta de um respingo gelado que começou a atingir o meu rosto. Saí de Porto Alegre com Sol e calor, chegava a Lajeado debaixo de uma chuva tão fria quanto à lâmina afiada de uma faca. As quatro estações num único dia, clima traiçoeiro, mas o que esperar de uma faixa de terra que um dia quis deixar de ser Brasil? O imprevisível…

Hospedei-me no antigo Hotel Mariani, não era a primeira vez que me chamavam para palestrar naquele recanto do país. Novamente, eu iria falar para as gauchinhas do curso de Letras de uma Universidade local sobre o velho Machado de Assis, uma grata e profunda amizade que cultivei através dos livros. Foi esse senhor quem mais me ensinou sobre o mínimo que sei das mulheres.

Eu passaria duas noites em Lajeado, uma cidadezinha que descendia dos imigrantes alemães e que guarda na sua geografia os mais belos tipos femininos que eu pude ver em todas as minhas andanças.

O recepcionista do hotel me dera uma dica, o bar do Meneguini era o ponto mais agitado nas noites de quinta-feira.

Talvez, seja uma das sensações mais revigorantes esta de caminhar num ambiente desconhecido onde ninguém sabe quem você é e você também nada sabe de ninguém. As ruas eram bem iluminadas e um vento frio interminável fazia arder o rosto enquanto eu ia seguindo o esboço de mapa desenhado pelo porteiro do Mariani. Era a marcha do pingüim buscando acasalar no município da geada. Faltava pouco para encontrar o bar.

O Meneguini era um pequeno Pub localizado no subsolo de uma enorme casa em estilo colonial, tinha seu charme. Simples, um pequeno balcão onde serviam as bebidas, mesas dispostas bem juntas e um palco minúsculo na extremidade do salão.

Entrei e fui cortando as mesas em direção ao balcão do bar, o burburinho era frenético, numa pouca distância percorrida eu havia visto uma quantidade considerável de mulheres atraentes. Um harém incrustado na geleira.

Pedi uma catuaba com cachaça e mel. Ah! O doce álcool, esquenta nossa carne e transforma nossa alma. Sempre desconfiei que a fórmula do Dr. Jekyll não passava de um bom traçado que conseguia trazer vida ao Mr. Hyde.

Circulando entre os gaudérios, meus olhos esbarram, perto do palco, com a encarnação de Ana Terra, uma moça que parecia ter saído das páginas de O Tempo e o Vento. Morena índia, alta, curvas esculpidas na perfeição, cabelos negros lisos que escorriam para tocar a sua cintura delicadamente fina, os olhos levemente puxados e de um castanho claro cristalino. Cobria o seu corpo um vestido branco colado que mais o revelava do que o escondia. O desejo me assumiu.

Afoguei a timidez na terceira catuaba e comecei a calcular a rota de ataque. Pensar, pensar, pensar… Chega de pensar, preciso agir! Não a deixava sair da mira, decidi me precipitar em sua direção. Caso eu fosse filmado numa dessas abordagens ao estilo Mundo Animal, a imagem seria semelhante à de uma hiena afobada que se lança contra a gazela. Freqüentemente, chego rindo e sem saber ao certo o que irei falar.

– Oi! É que eu sou do Rio, primeira vez que venho aqui, estou meio perdido. Vai ter algum show hoje? – E a sorte estava lançada…

– Vai sim! Um grupo aqui da cidade, cantam Beatles. É tri legal! – Ela foi simpática.

– Adoro Beatles, que sorte! Só não quero passar por Lajeado sem saber seu nome. O meu é Dante.

– Claro – disse rindo – O meu é Risonete, prazer.

A garota era linda, mas seu nome era Risonete… Como um detalhe tão ínfimo pode estragar toda a harmonia de uma obra. Travei por alguns segundos tentando assimilar aquele inesperado substantivo próprio.

– Bonito seu nome, diferente. – A educação é a mãe da mentira, pensei.

– Obrigada.

– Vou pegar uma bebida no bar, faço questão de trazer algo para você. Bebe o que?

– Que isso, não precisas te incomodar.

– Faço questão, me diz o que você bebe.

– Bem, se tu fazes questão… Uma Smirnoff Ice.

– Volto logo. – Avisei.

Retornando, engatamos num diálogo fluente. A Risonete morava sozinha numa região vizinha a Lajeado, uma localidade chamada Mussum (Comecei a me preocupar com os nomes daquele Vale do Rio Grande do Sul). Era solteira, sem filhos e tinha vinte sete anos.

Linda, mas o nome…

Depois da segunda Ice, estalamos um beijo faminto. Comecei a insinuar se ela não queria me apresentar a sua casa, que dormir sozinho num hotel iria ser péssimo pra mim. Foi aí que veio a segunda parte da história.

Ela trabalhava numa Seguradora em Lajeado e havia se tornado amante do dono do negócio, um coroa que beirava os sessenta e oito anos. Ele a sustentava, mantendo, inclusive, o seu apartamento. Como a cidade em que ela morava era muito pequena, não se sentia a vontade para me levar até onde residia, o ancião poderia ficar sabendo. Coisas do interior.

Muita conversa e deixamos um encontro marcado para o dia seguinte, hora do almoço, ela me pegaria em frente ao único Shopping de Lajeado, o Uni Shopping, iríamos para um Motel, seria mais discreto.

Voltei pro Mariani e dormi com tanta roupa que me senti fantasiado de astronauta, um frio de trincar os dentes.

Sexta-feira, uma hora em ponto e eu estava em frente à entrada principal do Uni Shopping. Céu azul, dia bonito. Um Corsa pára a minha frente, era ela. Belíssima, mas eu já não conseguia pronunciar seu nome sem que me causasse o ímpeto de rir. Entro no carro e seguimos para um motel que ela conhecia na estrada.

Quando dobramos no meio da BR para acessar a entrada do Motel, eu vejo o nome do estabelecimento, o inacreditável se materializou: Motel Sigilus.

Ali, o universo se transmutou numa grande piada. Cheguei a imaginar que todo aquele território poderia servir de estúdio ao ar livre para pegadinhas.

Passei, sigilosamente, algumas horas no Sigilus sorvendo uma das mais belas mulheres que me caíram nos braços. Para manter o tesão eu só tinha que me concentrar em jamais lembrar da tríade Mussum, Risonete e Sigilus. Uma gargalhada poderia ser o fim, mas tudo correu muito bem.

Ao voltar, ela me deixou no meu hotel. No quarto, peguei o celular e liguei para o Teixeirinha, precisava compartilhar aquela trama com um amigo.

– Cara, tu está de brincadeira comigo! Quer dizer que tu pega uma mulher com nome de salgadinho, amante de um velhusco, moradora de Mussum e vai comê-la num motel chamado Sigilus?! Só pode estar de brincadeira! – Exclamou o incrédulo Teixeirinha.

– Que nome de salgadinho, Teixeirinha? É Risonete o nome da menina!

– Então, não é igual a nome de salgadinho?? Risonete de carne, Risonete de frango… – O Teixeirinha soltou a risada que eu me obriguei a represar por dois dias.

Voltei para o Rio no sábado. No avião, fui anotando num guardanapo todos os nomes surreais dessa inusitada história para que, em algum momento, eu pudesse estar aqui contando para vocês.

Outra vez, driblei o Amor… Fiquei pensando… Era linda, mas o nome…