Estou amanhecendo de ressaca após uma noite infinita. Às vezes, tudo parece sem sentido. Engoli de um só gole a dose da Salinas, a cachaça desceu rasgando o esôfago. Não bebo sempre, sou esporádico com o álcool, mas quando bebo é uma comemoração pessoal, uma saudação pelo privilégio de ainda poder brindar à vida. O bar tocava What a Life com o som no alto volume, alguns jovens se moviam como pêndulos, outros dançavam sem inibição no meio da calçada da noite fria, as luzes também dançavam.

WHAT A LIFE

“Fuck what they are saying, what a life!
I am so thrilled right now
‘Cause I’m poppin’ (woo) right now
Don’t wanna worry ‘bout a thing (don’t wanna worry)
But it makes me terrified
To be on the other side
How long before I go insane? (Insane)”

No terceiro copo de Salinas, o sentido de tudo se revelava na falta de sentido, no caos. A mente filosofava em parceria com os acordes da embriaguez. Gosto da euforia artificial, da alegria ébria que me invade de repente. Um outro eu que se liberta do meu eu antediluviano bolorento e sóbrio. Escuto uma voz entusiasmada gritando meu nome.

— Dotô. Dotô Dante, o senhor veio — Baiano corre para me dar um abraço quase emocionado.

Sim, eu estava ali para visitá-lo após as tantas vezes que ele me atendeu carinhosamente no pé-sujo da Teófilo Otoni. Pelo WhatsApp, ele me informou que se mudou para outro bar, na Rua da Relação, perto da Lapa, porque este ficava aberto até tarde e poderia fazer mais dinheiro. Baiano me avisa que a próxima dose seria cortesia da casa, fico constrangido, mas aceito para não o decepcionar. Contou-me que ali também aparecem meninas promíscuas, mas que ele ainda estava mapeando o movimento. A verdade é que Baiano se comporta como um cafetão que ajuda clientes como eu, como se estivesse cumprindo uma missão humanitária.

Faz tempo que me transformei em um insone, durmo pouco, durmo somente na alta madrugada e acordo cedo. Virou um ciclo, um presente de grego da idade que avança. Shakespeare escreveu que há homens que ficam velhos antes de se tornarem sábios, sou um deles. Por que eu seria um sábio? A sabedoria é entediante, censura o desejo de viver. Sou um velho com todas as inconsequências da juventude.

Gosto de bares com música e o bar onde o Baiano está agora executa uma trilha sonora de primeira linha. Eu estava gravitando nos meus devaneios quando começou a tocar Disappear, do INXS.

DISAPPEAR

— Caralho. Que foda de música — a palavra obscena saltou espontaneamente dos meus lábios.

Senti uma inexplicável saudade da minha terra natal, o Rio Grande do Sul. Perdi a conta dos anos em que não visito as minhas origens, saudade das boates do interior gaúcho, das mulheres belíssimas que conheci por lá. Efeitos da bebida. A galera no meu entorno dançava frenética com copos na mão. O bar em que o Baiano está faz sucesso, tem uma pegada meio New Wave, meio retrô e é frequentado por jovens de tribos alternativas, mas também por coroas deslocados como eu. Vejo uma mulher animadíssima puxando a namorada e indo cochichar com o cara que mandava o som, o sujeito remexeu num bolo de CDs, num chaveiro de pen drives. Quando finalmente a música veio, o casal de lésbicas saiu pulando com gritos histéricos e correram para grupo que compartilhava o êxtase com elas.

FINALLY

A melodia de Finally tomou o ambiente como se fosse um chamado para a batalha, foi uma comoção geral. Neste momento reparei a imensa frequência da galera LGTB no meu entorno, qualquer bêbado esclerosado teria percebido isso antes de mim. Eu estava sozinho na mesa e fui puxado por um garoto imberbe que sinalizava com as mãos que eu também deveria dançar. Entrei naquela histeria coletiva.

— Foda-se — pensei.

Dancei muito. Quem me visse de longe talvez me confundisse com Priscila, a rainha do deserto. Eu me senti nos idos da Help, em Copacabana. Soltei a franga. Foi bom pra cacete. Que noite! As lésbicas me beijaram, o garoto disse que eu era um coroa enxuto e descarreguei a energia represada com passos de um dançarino com Mal de Parkinson. Que dinheiro compra esses momentos apoteóticos? De repente, Baiano me cutuca esbaforido com um celular na mão.

— Dotô, a mina quer falar com você. É quente, é quente. Fala aí.

Aqui, faço um breve intervalo. Sei que somos céticos quando nos deparamos com casos que ocorrem fora do cativeiro dos bordeis ou do sistema de lanchonete das frees, é compreensível, mas acredite, forista sem fé, a libidinagem e a promiscuidade também transitam pelos bares, pelos restaurantes, pelas ruas, pelas calçadas, pelo asfalto etc. “Isso realmente aconteceu, Dante?” — não é incomum algum amigo me perguntar, eu respondo que ele precisa viver para descobrir. A maioria das histórias que lemos nos fóruns refletem uma fatia mínima e viciada da luxúria carioca, mas ela é maior, mais ampla e foi sempre nessa outra face da Lua que preferi me aventurar.

— Alô, quem fala? — perguntei me esganiçando para superar o barulho ao redor.

— Mari. O Baiano falou que tu quer companhia. Vem pra cá.

— Onde?

— Em frente ao Bar das Quengas, na Ubaldino Amaral. Estou sentada aqui com uma amiga.

— E como você é? — perguntei.

— Vem pra cá que você vai ver. Vem logo.

Desliguei o celular e perguntei ao Baiano se ele poderia descrever a menina, ele me respondeu de forma vaga.

— Vai que é gata, dotô. Vai que é gata.

Paguei a conta, girei minhas botas para o destino e caminhei pela rua da Relação até a Ubaldino Amaral, não muito distante de onde eu estava. Quando alcancei a esquina da Ubaldino com a Men de Sá, em frente ao Bar das Quengas, avistei um boteco chamado “Beco da Noite”. Uma ninfa ruiva de cabelos compridos e pele alvíssima acenou para mim. Meus olhos devem ter brilhado…