PARTE 1

A noite avançava. Eu estava pelo Centro desde o meio da tarde, para um encontro marcado com a linda Mirella Moreno. Após o sexo, fui beber. Bebi acima da minha capacidade de absorção alcoólica, me sentia zonzo, estrábico. Precisava me sentar, descansar um pouco; talvez, beber mais, para alcançar aquele ponto de estabilidade da embriaguez. Lembrei do botequim do baiano, na rua Teófilo Otoni. Não nego, eu estava desorientado como um vira-lata e entrei pelo lado errado da rua. A região estava deserta, as luzes de vapor de mercúrio cobriam a penumbra com um tom de melancolia, fiz uma foto. Estanquei sem saber onde ficava o boteco. Antes de cair nesse embaraço, cumpri uma visita a 502, mas o DJ mandou uma playlist de “Sextanejo” que me fez pensar que eu estava em um episódio de “Carga Pesada” (é cilada, Bino). Não suportei 10 minutos de Chitãozinho e Xororó, vazei.

Vencendo os segundos de hesitação, escolhi seguir em frente por aqueles paralelepípedos envoltos em sombras coloniais e alcancei o oásis de luz que é o boteco das primas extraviadas. Já citei aqui que, recentemente, um amigo médico teve a coragem de me revelar uma suspeita, a de que eu posso ser portador de um nível leve da “Síndrome de Asperger”. Ele baseia a desconfiança no meu apego exagerado pela solidão, que não vejo como um elemento pesado ou dramático. A solidão representa para minha percepção o mais forte componente gerador da liberdade. Não, não me nego a conviver com gente ou conhecer pessoas, mas não sou desses que faz questão disso, não sou do tipo que gosta de andar em bandos. Lobos de matilha perdem a personalidade. A solidão é a minha fortaleza, é o limite que me preserva e que permite a minha autonomia. Não me vejo como um misantropo, mas não estou longe disso.

Baiano ainda se lembrava de mim, me recebeu festivo. Puxei 30 reais e dei como gorjeta adiantada para ele me arranjar uma boa mesa no espaço exíguo do estabelecimento. Ágil e veloz, ele montou a mesa em ponto estratégico e discreto, como se adivinhasse as minhas intenções. Não pedi, mas ele trouxe uma dose de Salinas, confesso que fiquei com receio de radicalizar, mas bebi em dois goles. Não pedi e Baiano chegou com uma porção de queijo prato em cubos, achei bacana a proatividade do rapaz, não reclamei. Ele cochicha ao meu ouvido dizendo que logo chegaria uma “pervertida” amiga dele: “bonita, muito bonita, doutor, é lá da 5, lá da 5” — ele revela sem me explicar o que era 5.

Fico sentado, sem compromisso com nada, contemplando o vácuo temporal que habita a Teófilo Otoni, uma ruela esquecida no meio do Centro da Cidade, que exala um passado coletivo que também é o meu passado. Perdi a noção da hora, o celular descarregou, é impressionante como nos tornamos náufragos urbanos sem o smartphone. No fim, gostei da situação. Eu estava ali, naufragado, incomunicável. Perdi o medo e engoli outra dose de Salinas oferecida pelo gentil Baiano. Acredite, Baiano é desses sujeitos que, em cinco minutos, consegue fazer parecer que é um amigo da vida inteira, confia-se nele porque transmite a ideia de que compra qualquer briga por você. Talvez, tenha sido efeito da pré-gorjeta de 30 reais. O capital compra os afetos mais sinceros.

Sempre imagino que alguns foristas devem se questionar se relatos como este realmente aconteceram como escritos. É possível que a minha precisão vocabular afete a credibilidade da narrativa, mas não consigo evitar o vício de escrever para alfabetizados com sofisticação intelectual. Posso garantir que o que virá pela frente aconteceu, com a ressalva de que os meus neurônios estavam comprometidos por um teor altíssimo de cachaça, mas estou acostumado a preservar a memória dessas contaminações químicas.

— É ela! É ela! — Baiano soprava alto o alerta e gesticulava como se fosse um controlador de tráfego aéreo.

— Quem é, Baiano?

— A Nanda. É a Nanda que te falei.

Coincidência de nomes, a loira se chamava Fernanda, como a negra da outra noite, mas essa nova personagem é conhecida no pedaço como Nanda. Ele tinha razão, o que vi surgir na sombria Teófilo Otoni fazia qualquer um exclamar “um avião”. Se o pequeno Tatoo estivesse ali com o Mr. Rourke, ele gritaria também: “um avião, um avião.” A diferença é que não foi fantasia. Uma loira fabulosa, alta, encaixada numa calça jeans justíssima, coberta por um top branco e uma blusa vaporosa que devia ter a intenção de protegê-la da noite fria. A garota andava formando um rastro incendiário. Vinha na companhia de uma baixinha destituída de virtudes estéticas, o que aumentava a beleza da loira pelo contraste involuntário. Chegaram abraçando e beijando Baiano, acomodaram-se em uma mesa próxima, foi quando vi o efusivo garçom apontando para mim. 

PARTE 2

Sou um insone. Os leitores mais atentos devem ter percebido que escrevo mais à noite, não raramente na alta madrugada. É comum que eu escreva da rua, pelo celular, bebendo e desejando que meu texto não saia com erros intoleráveis de digitação. A velhice sossega algumas almas, mas comigo a reação que ela causa é a de inquietude. Durmo pouco e durmo tarde, busco às ruas para aplacar a ansiedade. Não sei se achei boa ideia quando Baiano me trouxe a loira Nanda como companhia, mas me resignei a recebê-la.

— Não sou princesa, sou puta. E sou boa no que faço.

Fiquei maravilhado quando ela evocou essa frase, que só ouvi uma única vez de uma prostituta londrina, em um daqueles intermináveis dias chuvosos da cinza capital do Reino Unido. Ingleses são pragmáticos, gosto disso. Com uma curta sentença, a garota mostrou qual era o meu lugar e o que ela estava fazendo ali. Cortou a minha baboseira e encurtou o caminho para os nossos objetivos. Admito, afeiçoado forista, eu não estava em condições para foder. Cansado, bêbado, a cama surgiria no meu imaginário como a imagem do repouso eterno. Na tentativa de não desperdiçar aquele mulherão nem decepcionar o esforçado Baiano, perguntei a moça se ela aceitaria uns amassos comigo, na rua mesmo, como se fosse namorada fogosa. Ela pediu 80 reais e umas tequilas. Concordamos e iniciamos, sem pudores, a nossa noite desavergonhada.

Nanda me beijava e apertava meu pau enquanto eu olhava para os lados com acanhamento pela ousadia da moça. Fui me soltando, meti as mãos por baixo do top e segurei seus peitos. Que pele, que textura afrodisíaca. Nossas línguas se enrolavam como acrobatas em saltos mortais, uma querendo passar para a boca do outro. Engolíamo-nos. Perguntou se eu estava de carro, eu não estava. Sugeriu que fôssemos para outro lugar mais discreto. Mais discreto? Aquele trecho da Teófilo Otoni é frequentado por meia dúzia de desgarrados e alguns fantasmas, mas topei. Encerrei a conta com Baiano e deixei que a Nanda me conduzisse.

Na jornada bíblica pela árida e silenciosa Rua do Acre, ela me explicou o que acontece no bar do Baiano. Existem muitos bordeis no entorno, o Afrodite, o 210, as casas da rua Leandro Martins etc. Muitas meninas, quando o movimento está fraco, saem em intervalos e vão beber ou fumar no Baiano, no Cerejinha e em outros points nas proximidades. Algumas alocam quartos nos casarios da Teófilo Otoni e carregam clientes que pescam na pista. O universo mundano é feito de múltiplas engrenagens.

Paramos em outro boteco escondido, agora na Praça Mauá. Ela me pergunta se quero um boquete e me leva sem cerimônias para o banheiro feminino. Eu cambaleava na tormenta da Salinas. Entramos em uma cabine, ela fechou a porta, arriou minha calça e só me recordo que demorou muito tempo até o jorro de espermas que me deixou zonzo. Não aguentava mais beber, perguntei a ela se ficaria chateada se eu fosse embora e chamasse um táxi para me pegar onde estávamos.

— Não, não fico chateada. Vai descansar. Vou esperar com você o seu táxi.

Nanda ajudou-me a entrar na viatura. Sua sobriedade estava intacta mesmo depois de não sei quantas tequilas, uma leoa. Cheguei à bucólica Tijuca com o taxista me acordando. Paguei a corrida, desci do carro com dificuldade. A rua expirava um vento frio, vento londrino. Ecos do passado misturavam-se às vozes do presente.

“Não sou princesa, sou puta.”

E das melhores, Nanda. Das melhores… 

Reverência