Semana passada. Havia avançado no horário em que costumo ficar no Centro atualmente. Quase dez da noite e eu tomava o meu último chope no bar Flórida, na Praça Mauá. Sim, serei nostálgico, estimado forista, senti saudade da boate que existiu em cima do bar, onde as mulheres dançavam e faziam strip em uma passarela que cortava o meio da pista. Definitivamente, a glória boêmia do Rio está moribunda.

O aquário das freelancers me entedia, envelheci cercado pela sensualidade musical dos cabarés, pelo frenesi dos bordeis. No final da década de 1990, conheci uma loira que dançava num daqueles pedestais de boate (chamávamos de “queijo”), a menina parecia a Cameron Diaz. Aconteceu de nos aproximarmos, tivemos um caso, dormi muitas noites no decadente Hotel São Bento, eu pagava a estadia dela e ficava tudo por isso mesmo. Linda, com um par de seios que eu só costumava ver em revistas de nu feminino. O início da Av. Rio Branco fervia com o movimento mundano da boate Flórida, da Praça Mauá e da antiga Subway. Estacionava meu carro na Mayrink Veiga e ficava transitando por este Triângulo das Bermudas sexual. A melhor das perdições.

Hoje, a Praça Mauá mais se assemelha a um jazigo. Ouve-se o sopro de fantasmas, mas não vemos nada além das sombras que escondem memórias, sussurros e orgasmos que reverberam pelo tempo. Fechei a conta e fui caminhando pela semideserta Rio Branco. Eu guardava a certeza de que as putas e os grandes putanheiros do passado me protegeriam. A oração do libertino é o céu estrelado, o céu daquela noite estava límpido, impecável. Um aroma de maresia vinha do porto, um cheiro que me causa euforia. Quando estou quase alcançando a árida Av. Presidente Vargas, avisto a luz de um boteco ao longe, na despovoada rua Teófilo Otoni. Decidi tomar a última cerveja ou, se tivesse sorte, uma dose de Salinas. O botequim parecia miragem, se revelando mais distante do que a minha turva visão calculou, fui pisando firme com as minhas botas sobre os paralelepípedos noturnos, a pancada dos meus passos fazia o único som ecoando naquele silêncio escuro e ancestral.

— Está fechando? — Perguntei no balcão.

— Não. Aqui vai longe hoje — me respondeu um rapaz baixinho que se apresentou como Baiano.

O boteco tinha Salinas, pedi uma dose. Baiano foi rápido e ágil para atender meu pedido. Havia uns 3 casais e duas garotas sentados em mesas espalhadas pela calçada. No grupo das garotas, uma negra vistosa ficou me encarando desde que cheguei. Bonita, olhos amendoados, vestia uma minissaia jeans e um top branco. Dava para ver os biquinhos dos seus seios medianos apontando para a Lua. Pernas grossas que sustentavam um belo corpo. Meus olhos iam e voltavam para não cruzar com os dela. Na segunda dose da Salinas, o velho ressuscita o resíduo de juventude que ainda o habita. Ela continuava me encarando. Como um orangotango amestrado, fiz um gesto mímico tentando sinalizar que queria conhecê-la. Não precisei de mais nada, ela se levantou e veio em minha direção. Surpreendido e alcoolizado, eu não tinha assunto quando a menina se sentou ao meu lado, que não fosse perguntar seu nome e de onde ela era.

— Fernanda e o seu? Moro em Campo Grande, mas fico aqui durante a semana.

Ela perguntou se eu podia pagar uma tequila. Concordei. A garota despejou a tequila na garganta num único gole e sorriu. Que sorriso. Os dentes alvíssimos em contraste com a pele de ébano acetinado. Transpirei cochichando com meus pensamentos.

— Você é linda — a inevitável babada da terceira idade.

— Obrigada, você é charmoso.

Classificar-me como charmoso pode ter sido uma hábil manobra para ocultar que não teria condições de fazer nenhum outro elogio expressivo à minha aparência. Resignei-me. Os olhos de Fernanda pereciam desejar cremar meus ossos, entendi que seria o momento para uma abordagem mais objetiva.

— A gente pode ficar junto? Ir para algum outro canto para namorar?

— Olha, meu bem. Espero que não fique chateado comigo, mas eu trabalho. Podemos fazer um programa. Quer? Cem reais e você vai gostar.

Acredite, forista sem fé. Putas e libertinos se atraem como mercúrio. Não é uma teoria, é uma constatação cotidiana. Aquelas palavras me deixaram alheio de mim mesmo. Confesso que sempre desconfiei sofrer de Síndrome de Asperger, às vezes eu me ausento e tenho esse apego macabro à solidão.

— Oi? — A menina tenta me acordar do meu lapso de consciência.

— Você atende em algum hotel por aqui?

— Não. Não precisa hotel, meu bem. Atendo aqui ao lado.

O “aqui ao lado” da negra era um sobrado secular, com paredes descascadas e uma porta azul que remetia a priscas eras coloniais. Não me atraiu muito, a imagem transmitia uma mensagem hostil.

— Não podemos ir para algum hotel perto? — Insisti.

— Olha, meu bem, não conheço você e aqui é onde fico. Prefiro que seja aqui.

Todos os indícios pediam para que eu não aceitasse o desafio. O perigo gritava, mas aquele ar de maresia, a pele acetinada da negra… Ela tocou meu rosto com as mãos, acariciou a minha nuca e decretou a ação com uma pergunta…

— Vamos?

Há os foristas que clamam por objetividade, como se o sexo fosse um número de protocolo de alguma repartição burocrática. O que é a noite? O que é o sexo? A noite e o sexo são símbolos mundanos da aventura humana. Como exigir objetividade dos elementos mais subjetivos da nossa existência? Se todos viessem ao fórum para escrever objetivamente sobre um encontro sexual, não haveria diferença entre os relatos, seriam cópias consecutivas que se resumiriam a beijar, chupar e meter. Não posso evitar a compaixão por uma criatura que só consegue enxergar o sublime pela ótica do medíocre.

Talvez, o melhor do sexo, tanto na juventude quanto na maturidade, seja o suspense e a expectativa que o precede. O encontro, a surpresa, o jogo de sedução (mesmo no sexo pago), a ansiedade. Compreendo o sexo como uma jornada, com introdução, prefácio, clímax, epílogo e posfácio. Não conseguiria relatar um encontro como quem escreve minuta de contrato. Não dá. Por isso, exijo daquele que me lê o mínimo de sensibilidade e que seja uma alma alfabetizada.

Decidi acompanhar Fernanda no convite que me fez. A negra era sensualíssima. Apesar de alguns vícios de linguagem que denunciavam sua origem de comunidade, ela mantinha boa conversa e mostrou-se carinhosa. Bateu na carcomida porta de madeira azul, berrou um nome de mulher e num passe de mágica a porta imensa se abriu sozinha. Quando entrei, vi que uma corda amarrada à maçaneta servia como um porteiro eletrônico retrô. Estava escuro, subimos uns três lances de escada em curva, entramos em um apartamento também escuro e Fernanda me conduz pela penumbra até um quarto.

— Pode ficar à vontade. Já volto — ela me diz.

Preferi aguardar que ela retornasse antes de me despir. Dois minutos depois, Fernanda volta ao quarto emoldurada em um biquine fio dental, exibindo um corpanzão opulento e uma bunda de dimensão planetária. Apesar da pouca luz, reparei que o quarto era pintado de rosa e no teto brilhavam uns pontos florescentes, quase imaginei que fossem vagalumes. Ela avança impetuosa e me beija. Beijo real, de mulher de verdade. Trocamos litros de saliva. Ela ajuda a tirar minha roupa. Deitamos e roçamos nossos corpos tomados pela fúria da libido.

— Achei você um gato — soltou um repentino elogio.

— Sou um gato velho — respondi.

— Nada disso. É um velho gato — riu.

Nunca saberemos se esses elogios são sinceros, mas colaboram com o tesão. Afinal, a vaidade é o pecado preferido de do Diabo. Ela arrasta o tronco sobre o meu corpo, abocanha o meu inveterado pênis e o engole como quem prova um prato do Master Chef. Um baita boquete, no estilo rapel, a boca subia e descia em quedas vertiginosas até a raiz do membro. Ela levanta e se senta sobre mim, fazendo manobras ousadas com a boceta se esfregando sobre a minha virilha. Abaixa a cabeça e me beija mais. Lambe meu tórax, suspira. Mulher com entrega deliciosa.

Peço que ela fique na posição preferida de 9 entre 10 idosos, de quatro. Ela se empina me oferecendo o seu território mais íntimo. Penetro devagar, entrando em um salão que me recepciona com tapete vermelho. Aumento o ritmo das estocadas, Fernanda geme alto. Uma janela que dava para a rua estava semiaberta, fico com a impressão de que ela gosta de se exibir. Ela rebola enquanto a saboreio. De repente, sinto uma umidade anormal escorrendo pela minha perna, um líquido viscoso. Fernanda estava menstruando. Ela dá um salto e corre para fora do quarto. Cinco minutos para voltar.

— Desculpa. Desculpa. Não sabia que ia acontecer.

— Sem problemas, moça. Tudo bem.

A transa acabou, mas foi um belo momento, digno de registro. Ela sugeriu um boquete até o gozo, topei. Acredite, forista sem fé, vi estrelas. Não foi uma ejaculação, foi uma erupção na boca da garota. Ela engoliu, provando que não cultiva a menor frescura quando o assunto é sexo. Despedida. Não me preocupei em pedir telefone, ela disse que posso encontrá-la no mesmo boteco ou na boate 210, da rua Uruguaiana. Galguei com cuidado os degraus do sobrado centenário e ganhei as ruas. Eu estava imbuído de um sentimento estranho, algo que me inquietava. Fui caminhando sem norte. Quando despertei do transe, me vi em uma rua oca, tomada pelo vácuo urbano. Acenei para o primeiro táxi, dentro da cabine da viatura um som que há muito eu não ouvia quis colorir a atmosfera obscura. Enigma…

ENIGMA

O Sol é a promessa infalível que me dissolveria com a noite. Para o libertino o próximo dia é o próximo anoitecer, onde qualquer aventura é possível.