Noite de sábado, deviam ser umas onze horas. A noite de sábado é como um templo sagrado para o libertino. E, como não poderia deixar de ser, lá estava eu: sábado à noite, esquina da Siqueira Campos com Praça Serzedelo Correa, saboreando um chopinho e perdido nos mais profundos pensamentos, num bar que tinha o nome de Temperado.

De repente, sou despertado abruptamente pela gargalhada fanhosa do Teixeirinha. Sim, ele mesmo! Meu inseparável escudeiro, porque todo solteirão necessita de um fiel escudeiro que o acompanhe pela night.

– Cara, olha isso! Que maneiro! Nunca vi isso! – Bradava meu amigo Teixeirinha.

Foi quando percebi que estávamos diante de um fenômeno que eu também nunca havia presenciado no Rio. Uma espécie de fog, uma neblina carregada, que havia invadido Copacabana fazendo o ambiente parecer uma Londres tropical. Chovia fino, mas não sei dizer o que pode ter ocasionado aquele nevoeiro noturno. Para completar, ouço um som, uma música maravilhosa que me envolveu. Era a primeira vez que eu escutava Summer Time cantada pela voz da Janis Joplin e foi acontecer ali, num bar da Siqueira Campos e numa noite de fog em Copacabana.

O Teixeirinha foi ao delírio:

– Cara! Que isso! Tô me sentindo em New York!

O interessante é que toda àquela atmosfera cool fazia realmente parecer que estávamos numa outra cidade que não fosse o Rio. Terminamos de beber e decidimos seguir o itinerário que traçado, iríamos ao extinto Forró de Copacabana, que ficava numa galeria perto da esquina da República do Peru, onde atualmente funciona a Mariuzinn.

Começamos a caminhar em direção ao destino. Quando estávamos atravessando a Hilário de Gouvêa surge uma mulata descomunal, armada de um top para lá de decotado e de uma minissaia que deixava à mostra um par de pernas saradas como raramente testemunhei na vida. Quando cruzou conosco, nos fuzilou com um olhar e sorriu. Bastou isso para eu escutar a manifestação quase histérica do meu escudeiro:

– Foi contigo, foi para você! Ela deu mole, porra! Vai deixar passar, vai deixar passar?! – Gritava.

Como eu já estava com a cabeça em maresia depois de brincar de laboratório químico no bar da esquina, ao misturar diversos teores alcoólicos, acabei me deixando contaminar pelo entusiasmo do Teixeirinha e decidimos seguir aquela mulata fantástica para que eu pudesse tentar me aproximar. Foi aí que a nossa aventura começou! A mulata caminhava devagar, causando burburinho no trânsito. Como ela veio do sentido oposto ao nosso, tivemos que inverter nosso trajeto.

– Pra onde ela deve estar indo? Ela tem jeito de cachorra! Será que cobra? – Tagarelava o Teixeirinha ao meu lado.

Ela seguiu a Nossa Senhora de Copa, entrou na Siqueira, contornou a praça e….. Veio a bomba!

Tente se lembrar de uma boate que havia entre a Hilário de Gouvêa e a Siqueira Campos chamada Incontrus (era assim mesmo que se escrevia). Pois é, foi onde ela entrou! Pode duvidar, mas eu não tinha noção do tipo de boate que era a Incontrus. Percebemos um movimento diferente na porta, mas como também havia muitas mulheres, nós não tocamos para o que nos aguardava. Começamos a cogitar que devia ser mais uma boate alternativa, no estilo da Bunker ou da Dr. Smith. Após um momento de indecisão, resolvemos corajosamente desbravar o local atrás daquele monumento que nos havia acenado com a possibilidade de prazer.

O lugar era engraçado e gerou um suspense de mau gosto até chegarmos à boate. Primeiro, você subia uma longa escada que levava até a bilheteria; comprado o ingresso, você agora descia uma outra escadaria em frente e se deparava com duas enormes portas, ao ultrapassá-las, desfez-se o mistério… Queria que alguém tivesse fotografado a minha cara e a do Teixeirinha assim que pisamos dentro na pista. Os antigos navegantes anunciavam terra à vista ao se depararem com um Novo Continente, mas ouvi o berro do Teixeirinha exclamar:

– Cara! Que mar de homens é esse?! Em que furada que a gente entrou?!

Verdadeiramente, estávamos numa furada! Havíamos invadido uma boate gay. Diria mais, estávamos dentro de uma arena gay onde homens se digladiavam, se agarravam, se beijavam e todas as demais performances que eu e o Teixeirinha, anti-heróis do convicto mundo hetero, sequer poderíamos imaginar presenciar. O mal estava feito…

Agora já entramos! Vai atrás da mulata e convida para outro lugar. Se você conseguir sair daqui com ela, me chama. Vou ficar te esperando no balcão do bar – Informou meu heroico amigo.

Parti para resgatar a mulata, o lugar estava lotado e mal se podia andar. Rodei, andei, procurei e nada. Para piorar a situação, eu não conseguia encontrar a beldade. Existia um segundo pavimento. Subi. Nesse ínterim, já haviam se passado uns trinta minutos desde que entramos.

Na parte de cima, a boate era uma espécie de corredor polonês, foi preciso cautela. Finalmente, avistei a almejada potranca. Definitivamente linda! Estava no final do corredor e fui ao seu encontro. Parei. Rondei. Dei um tempo fitando a menina e mantendo uma distância segura, mas ela me viu e novamente abriu um inacreditável sorriso. Acenou. Ela me acenou! Quando ousei me aproximar, percebi que um braço envolvia a sua cintura. Continuei. Estacionei ao seu lado e lancei a intimação.

– Olá! Que bom que me chamou, queria mesmo falar com você.

– Qual seu nome? – Ela me pergunta.

– Dante e o seu?

– Dara. Eu chamei você porque achei que o conhecia, pensei que fosse um amigo antigo meu, mas agora vi que me enganei. Desculpa.

– E será que agora eu não posso lhe conhecer? – Devolvi.

– Olha, vai ficar difícil. Foi só um engano mesmo, meu negócio é mulher. Além disso, estou com a minha namorada aqui.

– Xeque-Mate.

Afeiçoados leitores, confesso que cheguei perto de enfartar, meu sangue subiu. Olhei em volta e quis apenas desaparecer daquele inferninho alternativo. Aí veio o golpe de misericórdia! Quando olho do parapeito, vislumbro o meu amigo Teixeirinha absolutamente trêbado, girando a camisa acima da cabeça, dançando freneticamente entre vários boys e esganiçando a frase:

– O mundo é gaaaay!

Reboquei no desespero o Teixeirinha, que hoje alega amnésia alcoólica. Por sorte, afirma năo lembrar (ou não querer lembrar) daquela noite fatídica, embalada pela voz da Janis Joplin e embaçada pelo único fog que assisti em Copacabana.